Filha unica devia herdar de seus paes uma fortuna consideravel. Os seus haveres juntos aos bens de minha casa formariam a primeira propriedade da provincia.

Sorria a opulencia a meus paes e embevecia-os a contemplação de um futuro placido e desassombrado de cuidados.

Vi Margarida, e ao vêl-a, ao trocar com ella as primeiras palavras conheci, que tinha no peito coração, e que me corria o sangue dos vinte annos nas veias tremulas e agitadas.

Margarida aproximava-se tambem dos vinte annos, mas toda a candura infantil fulgurava n’aquelle rosto, que não desabrochára ainda. Não tornei, por vida minha, a encontrar olhos que mais dissessem ao coração, quando mesmo quasi sem querer fallar se volviam serenos entre um denso veu de pestanas compridas e encurvadas. Toda a sua formosura estava nos olhos, mas esses não cediam em primores a quantos hei visto em mulher ou em pinturas. Fazia vontade de chorar olhar para elles, sentia se devoção fitando-os muito. Porque não ha como a mulher para nos fallar do ceu, de Deus, das coisas sagradas. Se creaturas assim corressem mundo a resgatar almas, se para os mais apartados da religião dirigissem um olhar d’aquelles dizendo magua, enthusiasmo e amor, e depois d’ahi os volvessem ao ceu como rasgar caminho para a alma renitente, não haveria atheu que resistisse, nem coração que se não dobrasse.

Vendo Margarida lembrava-me do ceu, lembrando-me do ceu, accudia-me que professára votos que me condemnavam a um perpetuo celibato. Um circulo de espinhos me apertava a imaginação: e padecia, como nem os condemnados no inferno poderiam padecer assim.

Com a candura de creança Margarida reconheceu-me desde logo como seu irmão. Não houve segredo que em mim não depositasse, esperança que me não dissesse, planos de futuro sobre que me não ouvisse, queixumes de meu irmão, que comigo não lastimasse.

Filippe casava porque tinha de casar, estimava Margarida como podia estimar uma irmã ou uma parenta, e nada mais. Margarida ao contrario não via, não suppunha, que podesse haver homem, que valesse o seu noivo. Amava-o com a cegueira, com o arrebatamento, com a loucura de um primeiro amor.

Não imagina como padeci com essas confissões arrebatadas, que me denunciavam um mundo de felicidades, que nem sequer entrevêra. Não imagina que dôr tão funda me ia direita ao coração, quando ella animada por aquelle amor que a aquecia e transformava, olhando-me, com as suas mãos nas minhas, com o seu halito a confundir-se com o meu, transfundia-me a electricidade que irradiava, e descrevia-me o amor que lhe chammejava na alma.

Deixava-a como louco e ia, quantas vezes sósinho, de noite, correr por aquelles descampados, andar muito sem saber por onde, cançar o corpo para descançar o espirito, e para depois, cedendo á fadiga, poder cerrar os olhos por algumas horas e tentar um somno mais attribulado mesmo do que fôra a propria vigilia.