Envelheci muito n’aquelles dias que duraram até ao casamento de meu irmão. Via approximar-se a epocha e não acreditava, não sei que louca esperança, não sei que desvario me dizia que tal casamento se não chegava a realisar. Parecia-me um sacrilegio, que tanto amor fosse empregado em tanta indifferença, parecia-me impossivel que Deus consentisse em tal.
Sacrilegio era o meu amor, sacrilegio duas vezes, por que era de padre e porque era por uma irmã.
Pelo modo como o tio Joaquim narrava a sua historia conhecia eu quanto elle teria padecido, e bem conforme ao que disséra antes de começar, presentia que outros tormentos deveria haver maiores do que as minhas duvidas e incertezas sobre o futuro, do que os meus sonhos e aspirações.
Chegou entretanto o dia, proseguiu o velho, e não sem que a estrada dolorosa tivesse sido para mim bem cheia de agonias e de provações. Margarida não suspeitou nunca quanto eu a amava, nem sob o gelo apparente, em que a tanto custo me sepultava, poude perceber os ardentes lumes de um amor desvairado. Occasiões houve em que rasgava o peito com as unhas até fazer sangue, em que tremia em convulsões para resistir, em que me exforçava com sobrehumano impeto para não desatar em suluços; outras em que tive de fugir para evitar a sua presença, porque já não podia luctar com o impulso que me arrojava para os seus pés a dizer-lhe quanto a amava.
E tive de assistir impassivel a todos aquelles pormenores, que me fallavam da felicidade futura de ambos, tive de escutar as singellas narrações de Margarida sobre todas essas minuciosidades, que me retumbavam na cabeça com estridor horrivel, porque em todas ellas descortinava, ou pretextos para uma caricia, ou commodos para um transporte, ou logar finalmente para aquelles dôces e para mim desconhecidos mysterios do thalamo nupcial.
Os primeiros clarões da alvorada no dia do casamento, encontraram-me accordado ainda. Na vespera mesmo não acreditava que podesse chegar: via raiar a manhã e cuidava estar sonhando. Pois Margarida havia de casar!
Minha familia, sem comprehender nem de leve, porque não recata mais cuidadosamente a abelha os seus lavores do que eu escondera de todos e de tudo o meu insensato amor, minha familia, digo, só experimentava uma pena: não ser eu quem casasse meus irmãos, porque a minha benção, cuidavam os credulos paes, havia de forçosamente attrahir felicidades sobre os esposos.
Na verdade seria o ultimo sacrificio, depois do qual poderia dizer a Christo: tambem sei o que é o Golgotha!
Pareceu-me tudo um pesadello, persuadi-me que acordaria breve de tão cruel illusão. Vi, ouvi, fallei, dirigiram-me perguntas, tornei respostas, e não soube nem sei ainda o que vi, o que ouvi, o que me perguntaram e como respondi. Dizem que pessoas ha que dormindo andam e fallam, assim devia ser o estado em que estive todo o dia.