Mal poude fugir á noite, corri, corri, e quando me vi bem longe, desatei a chorar como me não lembrava em minha vida de ter chorado assim. Parecia que me estallava a alma n’aquelles soluços, mas ao correr das lagrimas um grande peso saia de sobre mim. Não sei como, mas chorando sempre achei-me de repente deante das janellas do quarto de Filippe. Estavam illuminadas, fitei-as com o pavor com que daria de rosto com a entrada do inferno; vi passar dois vultos por dentro das vidraças, reconheci-os e com a razão de todo perdida atirei comigo a terra, agarrei com ambas as mãos a cabeça, e comecei a bater com a testa, como desesperado de encontro ao chão.
Com a força da dôr perdi os sentidos e para alli fiquei banhado em sangue, até que os raios do sol, já bem alto, me fizeram tornar em mim. Olhei machinalmente para a janella. Estava cerrada ainda; senti nova vertigem mas d’essa vez, sem me lembrar que ia banhado em sangue deitei a correr, o mais rapido que podia, em direcção do meu convento.
Disse que uma quéda no caminho me fizera o sangue que trazia, e facilmente me acreditaram. A verdade, se o dissesse, é que fôra para duvidar.
Encerrei-me na minha cella, pretextei uma doença para não sair e pedi ao meu bom mestre, que me ouvisse de confissão. Contei-lhe a minha historia, tal como se passára n’esses dias e pedi-lhe que me accudisse, pois que não sabia de mim. Ouviu-me o santo velho com lagrimas nos olhos, depois:
—«Deus me perdôe se errei, disse-me, e mais ainda se fiz a tua infelicidade, Joaquim, chamando-te para o serviço do Senhor. Mas era impossivel que assim não fosse. Ha homens condemnados fatalmente pela desgraça, e tu és um d’elles. Lê-se no rosto esse infeliz condão, adivinhei-t’o eu, que tambem sei o que é padecer.
Para dôres como a tua, para outras bem maiores ainda, se fizeram as solidões dos claustros e o gelo d’estes vastos carneiros. Sepulta para ahi a tua alma, emquanto não te sepultam o corpo, sob essas lages que hoje calcas, e morre já que foste condemnado a não viver. Não julgues cruel esta linguagem, é a que te póde fallar um amigo, quasi um pae.—O que sômos nós outros, pobres frades, n’este mundo? Fantasmas erradios que arrastamos a mortalha em vida, arrebentos solitarios, que medrâmos entre pedras. Para nós não ha familia, não ha esposa, não ha filhos, tudo que é morre comnosco, nada deixamos n’este mundo, que se lembre de que vivemos.
Mais um numero n’uma pedra, um nome no livro do registro, alguns ossos mais n’uma cova. Torna impenetravel o teu tumulo, calafata com o maior cuidado qualquer orificio por mais pequeno que seja, que dê para o exterior, e já que nada podemos ter com o mundo aparta-te d’elle de todo.
Já que não pódes ser feliz esquece, já que não pódes gosar, não sintas.»
Segui á risca o seu conselho. Graças á sua protecção deixaram me na minha cella, mesmo porque, segundo dizia, assim me preparava pelo estudo e pela meditação para ordens maiores. Passou um anno. Trabalhei, estudei muito e como disse Fr. João da Soledade, se não fui feliz, não senti; não me lembrei e não padeci.