IV
O reinado de D. Miguel approximava-se da sua terminação, e a tempestade, que se formára n’uma pequena ilha no meio do oceano, rebentára já sobre todo o paiz.
Armava-se a nação em peso; guerrilhas de um e outro partido percorriam as povoações e juntavam aos horrores da guerra civil o assassinato, o roubo, o incendio, o forçamento e o sacrilegio.
Bem esmorecido era o ecco, que na minha cella repercutia; mas ainda assim por elle avaliava das borrascas, que se desencadeavam fóra. Por quanto ainda que procurasse apartar-me das coisas d’este mundo, por tal fórma andavam todos preoccupados com os acontecimentos, que se iam succedendo uns após outros com rapidez incrivel, que era impossivel deixar de perceber, que havia graves casos, a attribularem a humanidade.
Fallaram-me de combates, de mortes, de incendios, de devastações; mas tal eu estava, que me era tudo indifferente. Antes, porém, occasiões havia em que, confesso-lh’o, desejava que um terremoto subvertesse o mundo para que na geral destruição encontrasse vingança correspondente ao que me haviam feito padecer.
Acordei das minhas meditações uma noite, ao rebate dos sinos da povoação proxima e ao dobrar sinistro e precipitado da campa do nosso convento. Ruidos desusados eccoavam por aquellas abobadas, passos de quem fugia, vozes de quem pedia soccorro, supplicas, choros, imprecações tudo se misturava e confundia.
Estava para me levantar do estudo e para saber a causa de semelhante alvoroto; quando a figura magestosa de Fr. João da Soledade me appareceu á porta da cella aberta de par em par.
—Ergue-te, Joaquim, disse-me, toma as tuas sandalias e o teu bordão de viajante e caminha!
Aquella voz fóra d’horas, aquellas palavras solemnes produziram-me effeito não inferior ao que deverá produzir a trombeta final no Valle de Josaphat.
—Que quer de mim, meu pae?