—Acabaram-se os dias de paz, chegaram as horas das provações e da lucta. Os servos do Senhor são perseguidos de terra em terra como animaes ferozes em montaria. Os impios não respeitam nem as abobadas sagradas, nem os vasos da eucharistia. Mesmo com a hostia sacrosanta na mão será o padre perseguido se assim o encontrarem!

A espada de Malco substitue a palavra de amor. Volta a egreja aos tempos da perseguição e do martyrio; segue-nos, Joaquim, as aguas do diluvio avançam cada vez mais.

Fr. João estava profundamente impressionado. A paixão politica ateava-lhe o zelo religioso, o homem do seculo trazia para junto dos altares as suas affeições mundanas, e das crenças fazia evangelhos. Pela minha parte, quasi que o não comprehendia. A linguagem emphatica, que estava empregando, destoava muito da singelleza em que educára o meu espirito reflexivo e concentrado. Fr. João com o olhar chammejante, o gesto altivo, o rosto illuminado por um enthusiasmo mais guerreiro do que apostolico, lembrava-me um d’aquelles monges prégadores de eras affastadas, que a minha imaginação tivesse feito surgir dos livros abertos deante de mim, e que de espada na mão direita, e crucifixo na esquerda, queriam abrir o caminho da redempção com o ferro destruidor, atravez das hostes dos infieis.

—Mas, meu pae, que aconteceu?

—Aconteceu, que os exercitos invasores se approximam talando campos e povoações; aconteceu, que na sua marcha amaldiçoada não ha propriedade que resista, cabellos brancos que se respeitem, honra de mulher que se recate; aconteceu que aos que cedem, espoliam; aos que não cedem, assassinam; aconteceu, que fallam em levantar mão sacrilega contra as muralhas defesas a profanos d’este venerando templo. Os phariseus em motim pedem o sangue dos justos. Deixemos a habitação de paz, d’onde nos expulsa a malevolencia dos impios, e vamos, como os apostolos, de terra em terra, de monte em monte, de caverna em caverna, onde suas vozes não cheguem, onde seu braço não alcance, levantar sobre a pedra tosca e rude a cruz do sacrificio, a hostia da redempção. Vem comnosco filho, vem percorrer o teu Getsemani.

Entretanto o sino grande continuava a dobrar com som soturno, os gritos da povoação disperta em sobresalto, os passos precipitados dos frades, que desamparavam, gemendo, as cellas em que haviam vivido por tanto tempo, e onde esperavam descançar para sempre, o som ameaçador e irregular de um tiroteio ao longe, davam áquella scena um caracter que impressionava profundamente. Pela minha parte, parecia-me que um novo pesadello me vinha cortar a somnolencia em que demorava havia tanto; resistia ao movimento e prostrado de animo e de corpo, preferia que me matassem n’aquelles logares a ir tentar nova sorte, n’esse mundo a que tinha tão grande horror.

Fr. João, que nos momentos solemnes parecia transformar-se, approximou-se de mim, tomou-me por um braço, fez levantar-me contra minha vontade, e bradou-me com voz terrivel:

—Serás tão ingrato, que desampares teus irmãos no momento do perigo? Aqueceria eu por ventura a serpente no meu seio?—Seria a prova mais cruel, porque te quero como filho; mas bem merecido castigo, por ter deposto a minha ternura n’essa vil argila. Fica-te para ahi, e fique a minha maldição comtigo.

E com tanta força me abalou, que me ia lançando por terra. Firmei-me porém, e respondi-lhe:

—Não, meu pae, não sou ingrato. Seguil-o-hei como a sombra segue o corpo, como a alma segue o pensamento. Era o aspecto do mundo que me espavoria; voltára tão mal ferido do combate, que não seria para extranhar que vacillasse agora antes de vestir de novo as armas. Sabe meu pae, que me não arreceio nem da morte nem das provações; mas sabe tambem quanto me custa ir fitar de novo essa gente, que tão grandes males me causou. Eis porque hesitava. Aqui me tem prompto para tudo, e creia que me não apartarei do seu lado.