Não lhe acreditaram nos juramentos, e mataram-nos barbaramente para se vingarem das suas negativas.
—E Margarida?
—Havia dias que partira para uma fazenda d’ali distante em companhia de meu irmão, salvára-se da morte, e da deshonra.
—Pois quê?...
—A tudo se atreviam aquelles homens implacaveis. Não havia barreira que se lhe puzesse deante, nem consideração, que os demovesse, pareciam furiosos.
Pela convivencia soube o que eram esses desalmados, a quem o amor da patria servia de pretexto, e o amor da rapina estimulava unicamente.
—Pois o tio Joaquim?...
—Fui guerrilheiro tambem. A vista dos cadaveres de meus paes operou em mim uma revolução pavorosa. Tive sêde de sangue, de destruição, de vingança. Enterrei os dois velhos sem derramar uma só lagrima. A febre do exterminio requeimava-me por dentro, cravei uma cruz sobre a cova onde ficaram, unidos como o haviam sido sempre, e jurei que não descançaria emquanto tivesse forças para uma espingarda.
Fr. João, que era perseguido tambem como lobo, porque todos o conheciam, juntou-se comigo; reunimos os mais enfurecidos do logar, aggravámos as feridas dos que mais haviam padecido, e levantámos uma guerrilha das mais afamadas n’aquelles tempos, e bem conhecida pelo nome de—guerrilha do frade.—
Luctámos, luctámos com encarniçamento sem egual, e parecia que as forças se nos augmentavam com a lucta. Andei n’aquella vida errante perto de um mez, sem dormir uma noite somno que aproveitasse, sem ter duas horas de descanço, sem ter um momento sequer para pensar no passado, ou no futuro.