A escolha de Emilia tinha sido acertada, porque o José da Avó era o mais guapo moço d’aquellas duas leguas em redor. Desempenado e direito como uma vara de abrunheiro, valente como um pau de carrasco, generoso e de brio, como nenhum: nem o mais pintado lhe levava as lampas em trabalho de fazenda, em jogos de pau, ou em balharicos de domingo.

E cantigas! Sabia-as elle cantar, como os que as sabem; entoava uma desgarrada ou sustentava um desafio, mais afinado e a preceito do que muitos d’esses italianos em segunda mão, que os empresarios nos impõem como notabilidades cantantes.

O outro pretendente não era muito cheio de não presta: mas ao pé do José da Avó ficava a perder de vista, o que não admira; porque vasados n’aquelles moldes não havia muitos no logar. Elle porém, como não queria attender á razão, damnava-se jurando pela pelle do ditoso preferido.

Este era o estado da questão na manhã do tal domingo, e os dois rivaes conservavam-se a distancia respeitosa no meio de dois grupos distinctos.

Tinha saido já quasi toda a gente da egreja, quando Emilia se retirou, sem que lhe faltassem commentarios, emquanto passava por meio dos grupos.

—Olha a delambida! soltou d’ali uma das raparigas mais feias da terra, parece que vae com o rei na barriga, nem olha para a gente.

—Era o que faltava, a fidalga!

—Vae toda enlevada no seu José, tem medo que lh’o tirem do lance.

N’isto o nosso Antonio, que não queria ficar atraz, tambem se intrometteu na conversa, dizendo com modos de quem estava corrente com os mysterios d’aquelle circulo:

—Pois faz elle bem em perder o seu tempo, porque ainda não ha muito que vi o Miguel de conversa com ella á porta de casa, e pelos geitos que a coisa levava, não era a primeira vez que se fallavam.