—Ora tu sempre tens uma lingua!

—Um raio me parta se minto; tinha-me calado e feito vista grossa, mas agora ferveu-me o sangue quando a vi assim como quem queria deitar lama para a cara da gente.

As palavras de Antonio não tinham caido no chão. José, desconfiado como todos, estivera de ouvido á escuta e não perdera nem syllaba. N’outra occasião voltaria de certo as costas ao maldizente, mas d’esta vez mudava o caso de figura: o ciume acreditava a voz do mentiroso e a tremer chegou-se ao pé d’elle, perguntando-lhe com voz indecisa:

—Juras que é verdade o que acabas de dizer?

—Se é! os diabos me levem se minto; eu por mim não queria causar-te nenhuma aquella; mas assim como assim mais tarde ou mais cedo havias de vir a sabel-o; e, verdade verdade, ella não te merece.

—Basta, lhe retorquiu o pobre José, e foi-se como um raio até onde estava o supposto arrojado.

Inutil é dizer que tinha sido tudo isto enredos e obra de Antonio. Soltára as primeiras palavras como por demais, sustentára o dito por capricho, mais tarde para que não suppozessem que tornára com a falla ao bucho por medroso.

Do outro lado do adro uma floresta de paus se levantava no ar, e já as navalhas estavam fóra das algibeiras; os dois tinham-se travado de razões, e como palavra puxa palavra, tinham passado dos ditos a vias de facto e malhavam um no outro como se fosse um monte de milho.

Ambos tinham partidarios, e por conseguinte a lucta assumiu proporções maiores; porém por muito encarniçada que fosse entre os partidos, parecia um brinco de creanças á vista d’aquella em que os dois se tinham travado. Davam como quem se despedia do mundo, e como quem desejava vêr estendido no chão o seu contrario.