PREFACIO DA 2.ª EDIÇÃO
Rodrigo Paganino e a critica
Um livro apparece, ao fugir do anno! Quando o sol está descoberto, quando tudo se cala no campo, como se o frio gelasse os menores ruidos, quando um somno lethargico se apodera das plantas, e as esperanças, a alegria, as flôres desapparecem da terra, um mancebo atira aos destinos o seu primeiro livro, atravez dos nevoeiros de dezembro!
Depois, como se fosse ainda pouco esta especie de ironia á sorte, habent sua fata libelli, declina a gloria de auctor sobre um pobre homem a quem conhecera em tempos, e que não tinha de litterato senão saber guiar uma junta de bois, conduzir a rabiça de um arado, ser grande menino na poda e na empa, e, para fazer um pé de lagar ou erguer uma meda de pão, dar conselhos apenas comparaveis aos do Archivo Rural!
Tio Joaquim se chamava esse amigo, que, depois de narrar muitas historias a Rodrigo Paganino, lhe disse poucos momentos antes de morrer:—«Agora acabaram-se os contos. Lembre-se de mim quando se lembrar d’elles; é a herança que lhe deixo.» Para outro qualquer, este legado teria algum parentesco com o de Rebollo pae, que na hora extrema concedia a seu filho a certeza de lhe deixar uma boa cabeça; mas Rodrigo Paganino, para honrar a memoria do velho, entendeu que devia dos contos d’elle fazer um bom livro, e foi o que fez!
Ha qualidades n’esta obra que bastam por si sós para firmar a reputação de um escriptor. Um estylo espontaneo, claro, sem arrebiques nem pretenções, mas airoso, facil, cheio de côr, de propriedade, e, o que mais é, de razão. Conhece-se apenas que é um mancebo quem escreve, pelos dotes de imaginação, pela graça das divagações, pelo tom breve das phrases; a idéa é sempre séria, prudente, exacta. Não se deixa levar de extravagancias que tendam a affectar excentricidade; é excentrico ás vezes sem se sentir, excentrico com chiste, excentrico com feição. Não planeia os effeitos, não prepara a phrase final, não hesita ante um adverbio por ser commum; concebe a acção, dispõe-a, depois deixa-se ir escrevendo, com uma rapidez, com uma veia, com uma facilidade de elaboração, que julga sentir-se a penna a conduzil-o, em vez de o sentir a conduzir a penna. E isto é o que dá a principal individualidade do livro, é este o segredo d’aquella maneira regular e serena, que só procura encantos na sua simplicidade. Faz-me lembrar os primeiros livros d’Alphonse Karr, em que elle escrevia ao publico como a um amigo desconhecido, cheio de familiaridade e de confiança. Rodrigo Paganino é d’esta familia de talentos; não procura impôr-se ao leitor; simplesmente trata de se identificar com elle. O merecimento dos Contos do tio Joaquim não consiste na maior ou menor novidade da fabula, nos effeitos de surpreza mais ou menos habilmente preparados, mas na pintura dos caracteres e dos costumes. Cada um dos seus personagens é desenhado com tanta espontaneidade, que fica vivo, real, palpavel, e toma o seu logar n’esta grande familia de seres creados pela arte, mais verdadeiros do que a verdade, particulares e geraes, individuaes e humanos, corpos de carne transfigurados em estatuas. Ha escriptores para quem a rapidez de trabalho é uma condição favoravel, e com o auctor d’este livro julgo dar-se este caso; se elle escrevesse com uma pachorra de academico, faria talvez um livro indigerivel. O seu estylo é claro, preciso, e franco; e, a exceptuarmos algumas raras passagens em que apparece o auctor, cada personagem falla perfeitamente a linguagem do seu caracter.
Encontrei-me com o auctor dos Contos do tio Joaquim, ao entrarmos na vida; fizemos aulas juntos, e juntos fizemos versos; tinhamos quinze annos então:—hoje encontramo-nos de novo, cada um de nós, como outr’ora, com o seu livro na mão, mas a differença é que do livro que levamos hoje somos nós o auctor! Isto é mau, ou, pelo menos, bom não é. Mais valia talvez ser estudante ainda. Ao vêr-se no frontespicio de uma obra o nome do que a escreveu, qual de vós cogita que foi á força de trabalho, de paciencia, de miseria supportada heroicamente, de privações e de luctas de toda a especie, que ao fim de alguns annos, ao vencer os ataques da critica e as invectivas da inveja, teve um homem o direito de escrever o seu nome na primeira pagina de um volume, esquecendo-se de que o injuriaram no seu talento, na sua vida, no seu coração, e que o seu peito serviu de alvo luminoso ás flechas atiradas de noite por uma cambada de archeiros invisiveis?!
Para viver tranquillo e feliz, é melhor fechar hermeticamente a porta, e não abrir a quem bater, sobretudo se fôr a gloria. Apesar da sua mascara de anjo, não passa do esqueleto vestido de lantejoulas; namora-se uma pessoa d’ella, para se arrepender depois centos de vezes; em todo o caso, hoje que o barco vae n’agua, como dizem os maritimos, é continuar a remar! Que atraz dos Contos do tio Joaquim venha outra obra, na certeza de que, digo-o sem cumprimento ao auctor, o despedir-se o anno por este livro é o sufficiente para deixar lembranças na litteratura.
Dezembro de 1861.