Julio Cesar Machado.
Appareceu um finalmente, um livro, cujo auctor abençoei com todas as veras do meu coração. Infeliz! Morreu já.
A meu vêr, desappareceu com elle um dos mais promettedores talentos de romancista popular que teem surgido entre nós. O auctor era Rodrigo Paganino, o livro Os contos do tio Joaquim.
A imprensa havia recommendado pouco este livro.
Tem d’esses descuidos a imprensa. Li-o por isso sem a menor prevenção favoravel. Mas era justamente um livro assim, que Reine Garde pedia; é d’este genero de litteratura que o povo precisa; é por esta fórma que se resolve a importante questão das subsistencias intellectuaes, não menos valiosa do que a que occupa as attenções dos economistas.
Pouco tempo antes, discutia-se primazias entre os Lusiadas e o poema do sr. Thomaz Ribeiro; tratava-se de tirar a limpo qual dos dois seria preferivel como livro para leitura nas aulas de instrucção primaria.
Todos se lembram d’essas renhidas controversias. Eu por mim nunca pude tomal-as a sério n’aquelle ponto. Achei sempre muita graça ao empenho em que via mettidos os criticos. Quem se podia convencer sériamente que qualquer d’aquelles excellentes livros fosse proprio para as intelligencias infantis dos pequenos leitores? Um com o seu sabor classico e epico e suas comparações mythologicas, o outro com o seu pronunciadissimo caracter de lyrismo e suas imagens romanticas e arrojadas, e ambos a suscitarem fundamentadas apprehensões nos mestres por um ou outro episodio que, baldados os esforços dos criticos, ninguem poderá considerar como demasiado edificantes.
Ora, quando eu li o livro de Paganino, pareceu-me encontrar n’elle justamente tudo o que debalde os criticos procuravam nos outros. Aquelle sim que era um livro verdadeiramente escripto para o povo e para as creanças! livro em que a attenção se prende pela verdade, em que o gosto se educa pelo estylo, em que o sentimento se cultiva por uma moral sem liga, porque é a moral do decalogo e do evangelho; livro escripto segundo o programma estabelecido por Lamartine n’aquelle bello prefacio da Genoveva e talvez mais fielmente observado ainda por o nosso romancista do que por o proprio legislador. Lembra-me bem que o li a um rancho de raparigas do campo e pude observar como ellas o comprehendiam sem custo. Não havia uma palavra que ignorassem, uma maneira de dizer que lhes causasse estranheza, as imagens faziam-as sorrir pela exactidão, como sorrimos ao vêr o retrato fiel d’uma pessoa conhecida; não eram caracteres extravagantes, paixões excepcionaes, situações inesperadas e unicas o que assim lhes absorvia a attenção; pelo contrario, era por aquelles personagens pensarem, sentirem e viverem como ellas, que tanto lhes interessava o livro.
Foi uma grande perda a de Rodrigo Paganino! E, vejam, aquelle volume, escripto para se lêr no campo, como eu o li, junto á fogueira que crepita no lar, sobre a ponte rustica que atravessa o ribeiro ou no degrau da ermida que, elevando-se no topo do monte, domina a aldeia toda, passou quasi desapercebido no mundo das lettras. Não suscitou esse murmurio litterario, que acompanha certas obras felizes; murmurio em que se reune o louvor á maledicencia, a hyperbole laudatoria á calumnia escandalosa, os guindados elogios ás censuras exageradas. Foi um livro annunciado apenas, lido por poucos, comprado por menos, livro cujo auctor não tem sequer o seu retrato gravado na Revista Contemporanea e que por tanto quem quer tem o direito de desconhecer. E apezar de tudo isso, aquelle livro, como disse não sei quem a respeito de não sei que obra, era alguma coisa mais do que um bom livro: era uma boa acção!