Acceitem-se-me estas palavras, não a titulo de critica litteraria,—Deus me defenda de pretenções a esse genero—, mas como um tributo rendido á memoria de um escriptor infeliz a quem sou devedor de algumas horas de incomparavel prazer, que a sua leitura me proporcionou.

Maio de 1861.

Julio Diniz.


Rodrigo Paganino morreu ha pouco menos d’um anno, deixando de si, como homem, muita saudade em muitos; e, como escriptor, um livro precioso, e não somenos inedito. Morreu, passou, desappareceu d’entre amigos, levantou-se aos vinte e oito annos, como Gilbert, do banquete da vida, trocou a purpura do genio pela mortalha funebre; e a raça enorme dos papagueadores, dos chroniqueiros, dos assopradores encartados de reputações e de nomes, quando o via passar para a sua cova tartamudeou quatro palavras de requiem, como se a terra se tivesse defecado d’algum sandeu ou estadista.

Apenas Bulhão Pato n’uma breve noticia cheia d’aquella eloquencia que nasce dos mais entranhados affectos, apenas elle espargiu sobre a sepultura d’aquelle moço algumas flôres de saudade.

Isto é a verdade, verdade amarga é bem certo, porque attesta a deslealdade d’esses applausos que por ahi resoam, o immerecido d’esses triumphos que por ahi campeam, o nada d’essas glorias que por ahi balzonam, o facticio d’essas proeminencias que por ahi se decretam.

Em 1861 Rodrigo Paganino publicou os seus Contos do tio Joaquim. O que este livro significa, que o digam com a mão na consciencia todos esses criticos, florentissimos e profundos, que entendem por ahi de litteratura. Para mim, o que elle importa, é nada menos do que a implantação, entre nós, da litteratura popular. O nosso povo, quer dizer, a porção menos cultivada e mais numerosa da sociedade, carece de livros proprios. Rodrigo Paganino sentia, comprehendia esta falta; e foi no intuito, senão de a remediar completamente, ao menos de a attenuar pela sua parte, e de chamar a egual trabalho os obreiros do futuro, que elle escreveu o seu livro.

Ouçamol-o: «Entre nós, n’estes ultimos tempos sobre tudo, a litteratura tem desprezado um tanto o gosto popular. Não acontece, porém, o mesmo em França, em Allemanha, e nos demais paizes, em que, segundo nos consta, se cura d’estas coisas e se lhes attendem os resultados.»

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