«Os Contos do tio Joaquim pertencem ao genero das obras de Emilio Souvestre, e deveriam tomar logar, pela natureza e não pelo merito, proximo d’aquella mimosa collecção que elle intitula—Au coin du feu.»
Este é que é o valor litterario da obra; este é que é o seu alcance philosophico.
Hoje, a primeira condição de quem escreve, é ser essencialmente popular. Quando o povo não se eleva, como na Allemanha, á comprehensão do bello, é forçoso que o escriptor desça até elle, que lhe desenvolva a razão, que lhe eduque o espirito, que lhe vibre a sensibilidade.
Acabaram-se os almotacés da critica; o gosto é livre como a consciencia.
«Os livros para o povo, diz Lamartine na Genoveva, devem ser historias simples e interessantes; inspiradas dos costumes, das profissões, das amarguras, dos contentamentos do lar e da familia, e escriptas quasi na linguagem do povo; devem ser como que o espelho onde elle se veja em toda a sua simplicidade e candura; mas que em vez de reflectir as suas abominações e torpezas, reflicta com preferencia os seus bons sentimentos, os seus trabalhos, as suas dedicações e virtudes, para lhe dar o amor de si proprio, e ancia do aperfeiçoamento moral e litterario.»
E acaso não são isto mesmo os Contos do tio Joaquim?
Não se filiam n’esta escola Os retratos de familia, O sexto mandamento, O Thomaz dos passarinhos, e O romance de um sceptico?
Creio que me não engano; diz-m’o o coração, pelo menos, que é quem decide, em regra, do valor d’estas obras, que são todas coração e sentimento.
O livro de Paganino prima, incontestavelmente, pela sublime simplicidade do estylo, e purissima verdade de affectos. O primeiro dote era resultado da espontaneidade, da fecundidade, da força viva de imaginação, da caudal impetuosidade das idéas, do genio, emfim. O segundo refluia-lhe inteiro do coração,—do coração que lhe era manancial perenne de amarguras, depois de lhe ter sido ludibrio de desenganos crueis, das illusões dobradas, dos sorrisos desleaes e das palavras traiçoeiras, com que este mundo costuma pagar liberalmente a sinceridade do amor e das affeições mais intimas.
Que Deus perdôe, como elle havia perdoado, a quem pensou que esmagar o coração de um homem valia tanto, ou talvez menos que espedaçar o mais futil brinco de creança!