—Pois bem, soceguem, que lhe não faltarei hoje, e não será por culpa minha se esta lhes não agradar.

O pobre do Antonio tinha pedido misericordia com um olhar de supplica: mas o velho compromettera palavra e não havia de se esquivar á promessa.

—Diz lá o rifão: «quem compra e mente na bolsa o sente;» como diz tambem: «homem de boa lei tem palavra como rei», isto era quando os reis tinham palavra, se alguma vez a tiveram, que d’essas coisas não sei eu, e quando não faltavam ao que promettiam.

O que é verdade é, que se o mentir prejudica a honra e o corpo, não menos prejudica a alma estar, por dá cá aquella palha a fallar no santo nome de Deus, e no dos santos, que não são pontos com que se brinque.

Nenhum, dos que aqui estão, vae incommodar o patrão para coisas que não valem a pena, e muito menos por conseguinte devem ir bater á porta dos patrões mais subidos, para de mais a mais os tomarem para testemunhas e parceiros de coisas que não só não valem a pena, mas que são mentiras ainda em cima. E depois, quando se apanha fama de mentiroso, não ha quem nos acredite por mais que deitemos os bofes pela bocca fóra, e ainda mesmo que fallemos a verdade. Mau é dizer-se que o cão é damnado.

—Mas se fôr para fazer bem, não se deve mentir tio Joaquim?

—Para tudo ha remedio. Uns homens que perseguiam outro, perguntaram a um santo, que encontraram no caminho, se tinha visto passar o malfeitor.

O bom do santo tinha-o visto, não havia muito; mas nem o queria denunciar, nem mentir tambem: já vêem que elle estava n’esse caso, e que se devia vêr a perros.

—É verdade, é verdade, e que respondeu?

—Que por ali não passára; e como estava com as mãos nas mangas, apontou para dentro d’uma d’ellas, por onde de certo o tal homem não podia caber.