—Ora! exclamaram alguns dos circumstantes, como admirados.
—Parecia santo saloio, tornou d’alli um ratinho, ultimamente embaçado na compra d’uma enchada.
—Nada que não, respondeu lhe logo o vendedor, que o percebera á legua, não tinha alma de beirão, que lá diz o dictado: no bom beirão corpo e alma pequenos são.
Talvez a questão se azedasse mais se o tio Joaquim os não interrompesse logo gritando: leva de rumor, vamos á historia do João da Tenda.
Quando vim para esta terra, já vae n’um par de annos, tinha elle uma lojasita lá no largo de baixo, mesmo á esquina da estrada real. Era um pequeno modo de vida, que bem cultivado podia produzir bastante; mas como havia descuido no amanho a colheita foi infeliz.
N’estas coisas de negocio a reputação de homem de palavra se não é ouro de lei vale-o bem; e d’esta riqueza o bom do João era mais pobre do que Job.
Ninguem se fiava n’elle e o credito diminuia cada vez mais. Direito em contas e honrado era: porém aquelle sestro maldito de mentir por dá cá aquella palha, a mania de fazer juras e protestos, que nunca se realisavam, fazia com que lhe roessem a corda na maioria dos ajustes, sem que tivesse direito de se queixar, porque não era mais do que pagar-lhe na mesma moeda.
Assim iam os tempos e o negocio corria-lhe por agua abaixo.
Para maior desgraça, no sitio onde não havia senão a loja do João, veio estabelecer-se uma outra e tirar-lhe a freguezia.
Era do José Fernandes, que ainda hoje lá a tem no mesmo logar, e que sabendo o valor do dictado—cara alegre ganha vontades,—tratou, emquanto o seu visinho andava de maus modos, porque os tempos iam maus tambem, de chamar freguezes, tratando-os ás mil maravilhas, e desfazendo-se em bons serviços.