Domingos, como é de querer, tinha escondido do pae os seus amores com Joaquina. Uma vez por outra procurou sondal-o a tal respeito, porém, como visse que era tempo perdido, tinha desistido da empreza, e assim ia tenteando o namoro com esperanças em que ou o velho cedesse da birra, ou o outro do vicio.

Foi por estes tempos que se armou uma das tantas guerras que por ahi tem havido na nossa desgraçada terra. Era preciso tropa e trataram de recrutamentos com toda a força.

Domingos, foi um dos sorteados. Seu pae, rico bastante, podia com facilidade pagar a um homem para o substituir, o caso era que o quizesse, e tanto que estava resolvido a sacar uma duzia de loiras da arca, onde estavam havia um par de annos sem vêr sol nem lua.

Era um domingo á noite, e o tio Fernandes recolhia-se de uma feira de gado onde fôra comprar uma junta de bois, de que precisava para a lavoira. Vinha deitando contas á sua vida, e tão entretido que nem lhe tinha custado o caminho.

Ao voltar de uma azinhaga avistou de longe dois vultos, que não parecia darem pela sua vinda. Reconheceu-os logo, e percebeu tambem qual o fim com que seu filho tantas vezes lhe tinha desculpado o João da Tenda, e porque tão desgostoso andava por assentar praça.

Fez os seus entes de razão, e ajustou com os seus botões, que: désse por onde désse, não se havia de fazer similhante casamento.

N’essa noite houve questão até fóra de horas entre Domingos e seu pae. O rapaz confessou tudo e o velho negou-se a pagar-lhe o homem.

—Ou deixar o namoro ou assentar praça, disse-lhe o tio Fernandes e Domingos preferiu a segunda condição.

Mezes depois chegava á terra a noticia da morte de Domingos. Tinha-se batido como um homem, tinha sido um dos primeiros a atacar, e pagára o atrevimento com a vida.

Figurem-se agora qual seria a pena de Joaquina ao saber de similhante noticia. A pobre da rapariga, depois que o seu apaixonado partira, não tivera nunca mais uma hora de consolação. Levava os dias a chorar, que era uma dôr de alma, e ia-se infesando a olhos vistos.