João, o culpado de tudo, pelo seu amaldiçoado costume, sem recursos porque os freguezes lhe tinham fugido, e porque o mal de sua filha lhe levava o resto, estava que parecia outro: e n’aquella casa, onde todos viviam contentes, não havia já nem signaes de alegria.

A apaixonada moça foi esmorecendo cada vez mais, os medicos não lhe achavam remedio para o mal, e qualquer que lhe receitassem não o queria ella tomar.

Acabou a sua cruz, e, em poucos mezes, foi reunir-se a Domingos, n’essa outra terra onde os amantes vivem unicos eternamente, e onde os justos gosam da felicidade sem fim.

Quando entrarem no cemiterio reparem para a esquerda, que hão de vêr debaixo do terceiro cypreste, a contar da porta, uma cova com duas cruzes de madeira e uma corôa de perpetuas. Ajoelhem sobre a terra benta, rapazes, e rezem ao Senhor pelo pae e pela filha, que ahi descançam juntos como o tinham estado em vida. Lembrem-se do que lhes succedeu, e reparem, que ás vezes uma mentira póde deitar a terra uma reputação por mais antiga que seja. Rapazes, quando se apanha um homem que não falle verdade, e quando se perde o credito, perde-se em pouco dinheiro e honras. Felizes ainda dos que não pagam com a vida como o pobre João da Tenda.

Quando os trabalhadores saíram, chegou-se Antonio ao narrador.

—Percebi tudo, tio Joaquim, prometto-lhe não mentir nunca mais nem fazer juras por coisas poucas.

—Deus te oiça, tornou-lhe o velho, que és bom rapaz; e se perderes esse mau costume, poucos haverá que te levem a palma.