IV
Os domingos de fóra da terra
Era n’um domingo de novembro. A agua tinha caido a cantaros todo o santo dia, e a chuva fôra tanta, que diziam pelos sitios: já os cães a bebem em pé.
Grande parte dos trabalhadores da quinta, em que eu vivia, tinha saido depois do jantar, embrulhados uns em mantas, outros em gabões e gabinardos em direcção á quinta do tio Joaquim de Mattos, acreditado pelo bom vinho que vendia, e pelos bons piteos que lá, de quando em quando, arranjava a sr.ª Josepha, sua respeitavel sobrinha, desenxovalhada moça e uma das mulheres com menos papas na lingua d’aquelles arredores.
De tempos a tempos apparecia pela adega do sr. Mattos, Deus lhe falle n’alma, pois era um honrado homem, um ensebado baralho, que cortava a monotonia de um sempiterno jogo de bola, e entretinha quando o tempo estava de peior catadura, os afreguezados frequentadores. Outras vezes tambem um ou outro especulador lisboeta arribava áquellas paragens com esperanças de armar trapaças e jogatinas, e esse então premunia-se antecipadamente com uns dados, de lizura problematica, ou com algumas cartas de egualdade controversa, que manejadas habilmente lhe serviam de traiçoeira isca para os agourentados vintens dos pobres maltezes.
Mas, verdade verdade, era uma excepção da regra. O dono da casa obstava quanto podia a estes desvios: e já experimentado nas consequencias, tratava de pôr cobro a semelhantes armadilhas.
O domingo, porém, a que nos referimos era um dos taes dias aziagos. Os lisboetas, as cartas e os dados tinham trabalhado muito, acompanhados, já se vê, de um numero infinito de quartilhos de vinho, que n’uma roda viva passavam do balcão para a mesa do jogo, e d’esta para o poder da tia Josepha, que já não tinha mãos a medir.
Em medidas effectivamente passara ella o tempo todo; mas nem todas eguaes, porque, por amor do proximo já se entende, quando os via mais carregados alliviava-lhes a mão, e esvasiava-lhes os copos; até que por fim de contas, quasi que, em vista da exiguidade da dóse, mal se poderia reconhecer quanto tinham pedido.