E dizem que descançam! Qual descanço nem meio descanço! Como se o homem não fosse como a terra, e como esta precisasse estar em pouzio para melhor produzir!

Muda-se a sementeira como se deve variar o trabalho, e o melhor descanço não é aquelle que consiste em não fazer nada; ou então, o que é peior ainda, em armar disturbios e levantar rixas.

Tres rapazes conheci eu, não ha muitos annos, cada um dos quaes tinha o seu modo particular de entreter os dias de festa, cada um dos quaes tambem escolheu fructos correspondentes ao grão que lançára á terra.

Variavam tanto nos costumes e systemas, como se apartavam nas feições, e como se vieram a differençar tambem no destino que levaram.

Tinham nascido na mesma terra, e, bem moços ainda, tinham vindo procurar trabalho á mesma fazenda; porque, acostumados a viverem juntos desde pequenos, não se podiam separar nem á mão de Deus Padre.

Roberto, o mais velho de todos, era feio de cara e de peior catadura. Zangava-se por dez réis de coisa nenhuma, e quando estava zangado dava por paus e por pedras. Tinha tanto de robusto, como de mau, e só respeitava, de toda a gente, os seus dois companheiros, Pedro e Anastacio. O primeiro d’estes fazia tanta differença de Roberto, como o dia da noite. Franzino e delgado, parecia que o menor sopro o deitava a terra, e lembrava mais um alfinete de toucar do que um trabalhador de enxada. Comedido e de bons termos para todos, em pouco tempo ficou sendo o ai Jesus da fazenda, onde morriam por elle.

Anastacio, o ultimo em que lhes fallei, era, por assim dizer, como uma ponte entre os dois. Fazia lembrar o outono entre o verão e o inverno. Se era desembaraçado e lesto como Roberto, era bom como Pedro, estimava um e outro devéras: mas se não podia levar a bem os arremessos e maus modos de Roberto, não gostava tambem muito de tanto de não presta, de que estava cheio o outro seu companheiro. Não lh’o deitava á cara para não o envergonhar; mas muitas vezes lh’o ouvi dizer:

—Não se ha de fazer nunca d’ali coisa que tenha geito, parece um Sant’Antoninho onde te porei; nasceu mais para fiar n’uma roca do que para puxar ao trabalho com substancia. Não é culpa sua, isso é verdade, mas por mais que me digam, aquillo foi erro da natureza.

Em pouco tempo teve cada um uma occupação adequada ás suas posses. Pedro, que mais não podia, foi encarregado de guardar um rebanho de ovelhas e cabras, que tinha mais de duzentas cabeças; Roberto tomou conta da abegoaria e das cocheiras; Anastacio ficou de rancho na malta, entre os trabalhadores de enxada.

Como é bem de vêr, o peior dos tres começou a fazer das suas: trabalhava de má vontade, embebedava-se, e tratava do gado á moda de mil demonios.