O mais fraquito, bem ao contrario, começou a fazer as vontades aos patrões e a cair lhes em graça.

Tanto fez, tanto fez, que o filho da casa pegou a ensinar-lhe a lêr, coisa porque elle morria havia muito tempo, e em que entretinha os domingos, passando os dias de semana, em quanto o gado pastava, a estudar as lições e a puxar por si; o Anastacio que não podia aturar a lettra de imprensa, nem, segundo dizia, tinha cabeça para aprender, começou a fazer economias para, logo que podesse, tratar de casar com uma rapariga da sua terra, com quem estava justo desde pequeno.

Emquanto uns iam para as tabernas e Pedro dava lição, elle, que não queria gastar o dinheiro em extravagancias, nem atormentar a cabeça com aquellas tontices dos livros, procurou vêr se aprendia algum officio ou arte, em que se entretivesse, e em que passasse o tempo com toda a economia.

—Porque não estudas tu aos domingos tambem? perguntava eu muitas vezes a Roberto.

—Ora, porque não nasci para sachristão, nem para besta de carga. Enfados bastam os da obrigação, que já não são poucos, quanto mais il-os eu buscar agora por minhas mãos. Sempre ouvi dizer que era preceito guardar os domingos e festas de guarda, e que trabalhar n’estes dias era peccado.

Estavam as coisas n’estas alturas, quando tive de ir á minha terra, recolher uma herançasita que houvera, e demorar-me por lá algum tempo para pôr as minhas coisas a direito; quando voltei nenhum d’elles já estava na mesma quinta.

Seis annos depois em dia de festa de Corpo de Deus, fui a Lisboa vêr a procissão e visitar de caminho uns parentes, que ali tinha,—já lá estão na terra da verdade, pobre gente!—Deus os tenha á sua vista.

Passava pela rua dos Bacalhoeiros quando ouvi que de uma tenda me chamavam pelo meu nome. Vejam qual não seria a minha admiração, quando dei com duas caras conhecidas, que me faziam muita festa, e que eram nem mais nem menos do que os nossos amigos Pedro e Anastacio.

Nem pareciam os mesmos, nos termos e nos trajes lembravam pessoas da cidade, mas no coração eram sempre os pobres e bons trabalhadores.