Tinha vindo a comprar uns trigos, assistira ao carregar dos carros e sahira depois do trabalho acabado, n’uma vaca de cinco annos, esperta como um azougue e preta como um azeviche. Rira muito, contára muita coisa, e fizera bom negocio; porque lhe tinham dado o pão em conta por ser a venda redonda.
O tio Joaquim, que não era dos mais falladores, nem dos que se abria muito com os extranhos, conversára com o sr. Antonio Tavares, como quem de ha muito o conhecia: apertára-lhe a mão na despedida com ares affectuosos, e seguira-o com a vista até desapparecer na volta da alameda, fazendo feitios com o pau na terra do pateo, e resmungando entre dentes palavras que não entendi.
Esta excepção nos habitos do velho, aguçou-me a curiosidade, e perguntei-lhe se conhecia de ha muito o homem que d’ali saira.
—Se conheço!...—respondeu-me inclinando a cabeça de alto a baixo, compassadamente, duas ou tres vezes.
Havia tantas coisas n’aquella reticencia do tio Joaquim, que não pude resistir, e instei com elle para que me contasse a historia do sr. Antonio Tavares.
Tanto fiz, tanto fiz, que sentou-se ao meu lado n’um poial de tijolo, carregou um cachimbo de madeira, enfeitado com virolas de latão, como os que usam os campinos do Ribatejo, petiscou, accendeu-o e começou.
Mais palavra menos palavra disse o seguinte:
—Vae tanta differença d’este Antonio, ao de outros tempos, como vae da noite ao dia, e tanto que se eu não presenciasse esta mudança, não podia acredital-a ainda que m’a contassem.
Lá embaixo, ao pé do Joaquim Boleta, no recanto da azinhaga, morou por muito tempo o pae em companhia da mulher que veio a morrer de parto, quando este Antonio nasceu. Ali esteve, até que por causa da guerra com os francezes chamaram as baixas antigas e elle, como tinha sido soldado n’outros tempos, teve de partir deixando o rapaz entregue a uma visinha, boa mulher na verdade e que promettera tomar conta d’elle. Mas é mais facil ter um pouco d’azougue quieto em cima d’uma pedra, do que era conseguir, que o rapaz não fizesse por ahi obras de cabeça.
Não deitava Deus nosso Senhor um dia a este mundo, em que se não dissesse: lá apanhou o Antonio engeitado, (assim é que lhe chamavam), uma escamoucadella na cabeça, lá o aleijaram n’uma brincadeira, lá lhe deram uma cossa quando andava aos figos.