V
Os retratos de familia[1]

Faz para as vindimas dez annos, que eu ouvi ao tio Joaquim esta historia.

Havia pouco que sahira da quinta, onde eu estava, o sr. Antonio Tavares, que passava por um dos fazendeiros mais ricos dos arredores.

Amanhava para cima de sessenta geiras de terra: e só de uva mandava perto de quinhentas caixas para embarque.

Era franco, alegre, e homem de boas petas; tinha pilhas de graça e parecia vender saude; emquanto a modos e linguagem, sabia o nome aos bois, e quando fallava de lavoira podia-se ouvir, discorria como um livro aberto.

Todos gostavam d’elle, por não ser de contos, nem de arcas encoiradas; só cuidava da sua vida, andando lizo no negocio como poucos. Ninguem lhe acceitava signal, porque em dando a sua palavra era como se apresentasse o dinheiro contado na palma da mão. Não constava que faltasse, nem se dava fé, de quem tivesse duvida em fiar d’elle fosse o que fosse.