Assim passou algum tempo com a barriga ora em lua cheia ora em quarto minguante, até que uma gente, que para aqui veio lhe fez mudar o modo de viver.

Um velho tinha arrendado a quinta dos Fusis, para onde viera presistir em companhia de sua filha.

Elle andava pelos seus cincoenta annos: parecia homem de bem; mas casca grossa e pouco de graças; ella, mais bonita que uma imagem e mais bem posta que uma fidalga.

Quando íam no domingo á missa ou de tarde a espairecer por essas azinhagas, o velho de cabeça branca, corpo um tanto curvado, bigodes grandes, sobrancelhas espessas, parecer carregado e faces enrugadas; ella alta, esbelta, de olhos pretos e vivos, cabello castanho, faces córadas, feições alegres e cara de riso para todos, pareciam a noite e a madrugada, ou o inverno e a primavera que se combinassem para melhor parecer unidos um á outra.

Os rapazes todos derretiam-se para ella, mas o pae que não tinha cara de muitos amigos, impunha-lhes respeito e conservava-os de largo; e d’ahi ella assim mesmo sempre alegre, mas toda senhora, dava tambem a entender, que não estava resolvida a acceitar a côrte a qualquer badameco.

Antonio vio-a um dia e ficou perdido de cabeça; desde essa occasião começou vida nova: e o rapaz extravagante e vadio, começou a ser homem.

Era tempo, tinha quasi vinte e cinco annos.

Mas a vida que seguiu, foi tão differente da antiga, que não parecia o mesmo.

Os dias passava-os a trabalhar, as noites a aprender a lêr, porque o mestre do logar lh’o ensinava a troco dos domingos, em que lhe trabalhava no quintal, e as horas de sesta ou de jantar passeando pela frente da casa da menina Maria, que o enfeitiçára: mas para bem, que são os melhores feitiços.