E o caso é que o maganão do Antonio tinha bom gosto, por que mocetona mais perfeita não a havia n’estas tres leguas ao deredor. Ia-se desenvolvendo e medrando, que era um louvar a Deus, e não seria por sua parte, que podesse resultar má fama aos ares do logar.
Bonita já ella o era, mas enfezada e doentia por amor d’aquelle mau respirar que as cidades fazem; apenas porém desatou por ahi a passear e a espairecer, entrou a córar, que nem uma pera de Santo Antonio, e a encorpar que nem uma maçã bemposta.
Se ella reparava no rapaz, nem o sei eu, nem ha quem o jure, porque isto de mulheres, nem o demo as entende; mas que o não visse com maus olhos é de crêr, porque o Antonio, não tinha nada que se deitasse fóra e era um rapaz perfeito a mais não poder ser.
Cá por a terra não se fallava n’outra coisa e não havia tenda nem barbeiro, onde se não désse á taramella a tal respeito. Tudo em bem, que em mal não havia rasão, nem atrevimento para tanto, por que com Antonio ninguem brincava, e todos se pellavam de medo de um certo marmelleiro ferrado, que elle trazia e que não era palito para dentes, nem vime de passar creanças.
Tanto fallaram, tanto fallaram, que o caso foi aos ouvidos do pae, que já andava com a pedra no sapato por tanto rondar de porta e tanto encontrar o Antonio nas visinhanças da quinta.
Um dia, que acabava de fazer a barba, dois maltezes que estavam no barbeiro, e que o não conheciam, entraram com pé de conversa a respeito do tal namoro e deram a entender, lá por meias palavras que o Antonio se fazia com terra de casar com a menina Maria.
O sr. José Alves, assim se chamava o pae, não quiz ouvir mais nada; atirou com uma de trez para cima da mesa do barbeiro, e foi se como um raio a casa do Antonio.
Boas tenções não tinha elle. Ia fumando, e vermelho como um pimentão, saccudia um camolete que levava, que mais parecia um bastão de tambor-mór, do que uma vara de encosto. Se encontrasse o rapaz no meio do caminho, atirava-se a elle, e não o deixava em quanto lhe encontrasse osso inteiro.
Era um sabbado e quasi ao sol posto: o quarto estava escuro e Antonio, que voltára mais cedo do trabalho, tinha-se atirado para cima da cama, farto de lidar e sem poder comsigo.
Apenas por uma claraboia, que havia no telhado, entrava alguma luz, e essa ia bater de chapa no retrato, que estava á cabeceira; parecia pessoa viva, e até mettia respeito olhar para elle.