Apenas soube, que eu ali chegára o sr. Antonio Tavares, mandou-me entrar para a casa de jantar, onde estava com a sua familia; Maria, que devera ter sido tão formosa, como o tio Joaquim o dissera: e duas creanças, que se tinham levantado da mesa e que brincavam ali para um canto.

A casa, posto que conservasse aquelle aspecto severo, que ainda se denota n’algumas fóra de Lisboa, que fosse de ladrilho, com as paredes revestidas d’azulejo até meio, e o tecto em osso, com as grossas vigas de castanho do emmadeiramento á mostra, era alegre, porque recebia muita luz de tres rasgadas janellas, que deitavam sobre uma horta. A mobilia era de pau santo torneado, e n’um grande armario meio aberto via-se boa louça da India, e algumas peças d’uma baixella de prata. No logar de honra dava-se com o retrato a lapis de Antonio e com um outro mais moderno, a oleo, que devia ser do sogro: uma santa, que não sei ao certo qual era e dois quadros de fructas ornavam as paredes.

Tudo reunido dava á casa de jantar um certo ar patriarchal, que infundia respeito e inspirava felicidade.

Antonio depois de me pedir que me sentasse, e de me offerecer um copo de vinho da lavra, levantou-se e foi a um contador buscar o dinheiro da compra, que já estava embrulhado e prompto desde a vespera; conversámos um pouco, e quando me despedia, pediu-me que o visitasse a meudo, porque estimaria vêr-me em sua casa.

—Voltarei, lhe prometti, e voltarei em breve: o tio Joaquim contou me a sua vida, e apenas o conheci, comecei a respeital o.

—Bondades suas e do tio Joaquim, que é muito velho, não ha razão para o que diz. Fui rapaz, fiz o que todos fazem, emendei-me a tempo, se é que não foi tarde: se alguma virtude tive, e essa mesma bem m’a têem pago aquelles,—disse-me olhando para Maria e para os pequenos,—foi não me esquecer no meio de todas as minhas doidices, que me tinham ensinado a Honrar pae e mãe.