—Adeus!
Passava-se este dialogo no pateo da quinta de Valle do Freixo no dia de S. João, ao amanhecer.
Houvera um bailarico de primor, a que tinham concorrido os rapazes e as raparigas das visinhanças e com elles os paes, as mães e os tios.
Era um poder de gente, que passára a noite a cantar, a dançar, a pular, a rir, a comer, a beber, a respirar alegria: a provar que os cuidados lhes não pesavam na consciencia, nem o mau humor no espirito.
Fôra um dos mais brilhantes bailaricos de que havia memoria.
O dono da quinta pozera uma grande meda de vides á disposição da fogueira, e uma pipa de vinho ás ordens dos concorrentes; mandára cozer varias amassaduras de pão, frigir um por ahi além de peixe; transplantára dois alfobres de alface para quatro alguidares, juntando-lhes tambem quatro cestos vindimos com a fructa do tempo, e sobre tudo a boa vontade e o contentamento a resplandecerem-lhe na physionomia, convidando todos a divertirem se.
Infelizmente, porém, nem todos podiam estar alegres. N’aquella multidão buliçosa duas creaturas havia tão tristes, tão attribuladas, que cortava o coração olhar para ellas: parecia que tinham vindo assistir, não a uma festa, mas a um enterro.
E na verdade, ali enterravam vinte annos de esperança e de amor: n’aquella noite se viam em despedida, e só Deus poderia saber se essa despedida seria eterna.
Rosa e Estevam tinham vivido juntos desde creanças e tinham-se acostumado a amar, antes, ainda antes de saberem o que era amor. Conheceram o que era quando começaram a padecer; porque é no soffrimento que elle desabrocha, como as rosas de mais apreço nos seus berços de espinhos.
Juntos balbuciaram as primeiras palavras, juntos aprenderam a lêr, juntos iam á escóla, juntos voltavam ás tardes, e juntos passavam as noites brincando no campo e discorrendo alegremente, como duas avesinhas chilrando proximas na mesma arvore.