Ao passo que ia ouvindo seu pae, Rosa ia successivamente esmorecendo.
Á vermelhidão, que lhe tingira o rosto ao receber a brutal bofetada, succedera-se uma pallidez citrina, que augmentára até ficar de puro alabastro.
Tinham lhe rebentado as lagrimas dos olhos no primeiro momento; mas não correram. Uma constricção terrivel lhe afogou a garganta, pensou que ia suffocar-se: pulava-lhe o coração no peito, batiam-lhe as arterias na cabeça, semilhando o marulho das ondas, em torno do que mergulha rapidamente, um cinto de ferro lhe apertava a fronte, zunidos estranhos lhe baqueavam no cerebro.
Cuidou que ia morrer e do intimo d’alma elevou ao Creador, uma prece de jubilo, em acção de graças.
Era um desmaio apenas, um d’estes abalos, que passam pelas organisações nimiamente nervosas, como o furacão pelos arbustos, extremamente debeis.
Acurvam-os até ao chão, estorcem-os na passagem; mas não os partem.
Rosa quiz segurar-se á mesa, mas estonteou-se-lhe a vista, andou-lhe a cabeça á roda, desfalleceram-lhe os braços, correu lhe gelo pelas veias e deu redondamente no meio do chão. Parecia morta.
Feliciano largou uma d’estas maldições capazes de espavorir toda a milicia celeste e correu á filha; estremeceu-lhe o remorso todas as fibras do coração de pae. Não havia maldade nas intenções do velho; entendia a seu modo a felicidade da filha, que estimava devéras: não se persuadiu que o golpe tivesse tão fundo alcance e trepidou ante as consequencias.
Mas ao vêl-a voltar a si, recuperou a confiança e de novo tornou ao seu plano favorito. Intentou com aquelle frio calculo de quem já não cuida em amores, que a voz do coração era uma impertinente a que se não devia dar ouvidos em questões d’esta ordem, e que só o interesse devia tomar a palavra e fallar de cadeira: amaciou entretanto a voz, voltou-se menos rispido para a rapariga, e disse-lhe quasi enternecido: