—Eu não senhor.
—Pois é preciso que olhes, entendes-me? disse-lhe Feliciano derrubando as sobrancelhas e deixando cair a viseira: talvez te agradem mais esses alfenins lambidos, que por ahi se andam a desfazer? Pois estás muito enganada comigo, percebes?...
E ao passo que ia fallando engrossava a voz e fazia cara de arremetter. Rosa tremia como varas verdes, e, com os olhos arrasados de lagrimas, encommendava se mentalmente a todos os santos do seu calendario.
Mal teve forças para balbuciar um:—sim senhor, meu pae,—e, cambaleando, foi fechar-se no seu quarto, deitando-se em cima da cama a soluçar convulsa, como quem se despedia d’este mundo.
No dia seguinte, ao almoço, parecia que voltava do cemiterio, Feliciano, porém, que se não apercebia facilmente d’estas mudanças, ou que, se as conhecia, fingia bem o contrario, repetiu o interrompido assalto.
—É preciso que vás pensando no casamento, estás uma mulher, ouviste?
Bem quizera a pobre da rapariga não ter ouvido; mas era impossivel dessimular.
—Eu, meu pae; estou assim bem, eu não quero casar!...
A resposta não se fez esperar muito. Feliciano soltou uma torrente de imprecações, acompanhamento estrepitoso de uma bofetada não menos estrepitosa, que já cortava os ares ainda bem a rapariga não acabára de dizer que não queria casar.
—Grandissima atrevida!... Eu te ensinarei a ter querer! Não queres casar, hein! E pensas que engulo essa!... Vossês lá que bebem ares por um marido! Mas tu o que não sabes é com quem estás mettida: eu não nasci hontem e não has de ser tu, minha seresma, que me faças o ninho atraz da orelha. Não queres casar, hein!... Ora mette-me o dedo na bocca a vêr se t’o mordo! É volta de festa, é namorico no caso, mas apanhe te eu, que verás por uma vez os meninos orphãos a cavallo. Não queres casar! Mas quero eu que te cases e é o que basta. O visinho Januario pediu-te hontem e eu resolvi que havias de ser sua mulher. E é dar graças a Deus, pela pechincha! Onde pódes ir que mais valhas? Andar para deante e cara alegre, quero que estejas contente, que mostres ao visinho, que tens gosto no casamento, e que lhe agradeces os seus affectos, senão... ponho-te fóra de casa depois de te moer esses ossos, e não quero mais que me chames teu pae.