Satanaz se fôra o demonio do amor e não o demonio do orgulho resistiria ao Omnipotente.
Quando se assenhoreia de nós, o amor espalha por tudo quanto nos cerca, fulgores que nem a centelha do raio póde offuscar, harmonias que nem os córos celestiaes pódem fazer esquecer, encantos, que não os tem assim a bemaventurança.
É que a mulher reside para nós em tudo: tanto na florinha, que mal se descortina entre a relva dos prados, como na montanha arrojada, que parece lacerar os seios do infinito: se queremos colher as flôres para com ellas lhe juncarmos o pizo, queremos transformar-lhe a montanha em pedestal, para sobre elle a levantarmos.
Da nuvem far-lhe-hiamos um véu, das estrellas um diadema, dos ceus sem limites um azulado sendal.
E depois descontentes ainda, pedimos com religioso fervor ao auctor dos mundos, que reforme a sua obra, que dilate mais a creação, que a exalte mais; porque não nos chega, quanto existe para a mulher por quem vivemos.
E se é assim o homem, o que não será a mulher, toda sentimento, toda amor, toda affecto e... senão toda egoismo, toda vaidade e toda presumpção.
A mulher, que, quando ama devéras, arranca o homem, das trévas descobrindo-lhe novos lumes de paixão, feições novas de sentir, delicadezas desconhecidas, mimos e enlevos, que não descortina nunca a nossa natural brutalidade. A mulher, que ou ama, como cantam os cysnes, amando e morrendo desde logo pelo amor, ou nutre em si o amor, como a arvore alimenta a parasita, vivendo só para a nutrir e definhando-se em quanto ella medra á custa de sacrificios, de abnegação, e de soffrimentos inapreciaveis; ou quando mesmo, presumida em excesso, e vaidosa sem termos, se ama a si, amando o homem, que se lhe rendeu, e bem querendo a esse rendimento, a essa homenagem, a esse culto, porque lhe desvanece a vaidade, porque é uma confissão eloquente das suas perfeições, porque finalmente é seu, e veio de si, para de novo voltar para si, como as plantas amam a agua, que elevam da terra, entregam aos ares, para que estes lh’a restituam depois em amorosas lagrimas.
Rosa amava e amava sincera, piedosa, apaixonadamente. Não havia confeição alguma n’aquelle sentimento, que nascera do coração, proviera da alma, e que se fortalecera aquecido pelos éstos da natureza. Amára creança ainda, amára com força muito maior, quando a puberdade, lhe transformára o ser transfundindo-lhe nas arterias faúlhas de desejo.
Quando a vida nova dos dezeseis annos lhe abalou a organisação infantil, quando o coração se tornou turgido de sangue, rico de vida e farto de estimulos creadores, quando aquella flôr do campo, chegou ao periodo, em que as petalas se tingem de mais brilhantes côres para deslumbrarem e cahirem breve, o amor de Estevam, que já a possuia transformou-se tambem, e dominou a mulher, como dominára a creança.
Foi para elle, que, córando de pudor, elevou os seus pensamentos de mais arrojado affecto, quando lhe esvoaçou deante da imaginação deslumbrada essa nova perspectiva, que lhe apresentava o mundo, ao conhecer-se outra pela inspiração divina, que n’essa quadra da vida, patenteia á mulher os desconhecidos horisontes da procreação e da maternidade.