O amor de creança unira-se ao amor de Estevam; e d’este delicado enlace nascera o amor—mulher. Não lhe assomava o desejo á mente, sem que esse desejo se não transformasse para ella na imagem varonil e fascinante do seu apaixonado. A sua nova existencia era de Estevam; era por Estevam: e o homem, que tal consegue da mulher, póde chamar-lhe sua, sem que o considerem presumido.
Entretanto as palavras de Feliciano operaram em Rosa uma revolução cruel. Não se persuadira nunca, que o amor de filha podesse entrar em lucta com o amor de mulher: e nem por sombras se preparára para semelhante combate. Se o coração fallasse unicamente, se não se tratasse senão de resistir á colera e maus tratamentos de seu pae, a escolha não seria duvidosa. Matasse-a embora, que morreria contente, se até aos ultimos momentos a deixassem amar Estevam; mas a maldição paterna troava-lhe ainda aos ouvidos, e todas as fibras d’aquella organisação delicada extremeciam, só ao lembrar-se de que elle lhe prohibira o nome de filha. A religião, a crença, a educação, tudo lhe fallava em favor de seu pae; em favor de Estevam só o muito, que o amava, mas não era o bastante. Amaldiçoada, via os tormentos do inferno, o penar de sua alma, a espada de fogo do archanjo exterminador, a condemnação eterna, e a memoria da sua infancia, e os santos de sua devoção a sumirem-se-lhe para sempre.
Não enlouqueceu, porque não teve forças para tanto; não morreu, porque a intensidade propria do soffrimento lhe deu forças para resistir, phenomeno bem vulgar nas organisações nervosas; não se matou, porque lhe affastavam tal pensamento de si, as idéas com que fôra creada: soffreu muito, por fim, pelo embotamento do soffrer, pareceu resignar-se.
Triste resignação, em que amortalhára os mais puros affectos, o mais risonho futuro, a mais affagada esperança!
A idéa de que se sacrificava á vontade de seu pae se não lhe deu consolação, deu lhe forças; e o persuadir-se que cumpria com o seu dever animou-a a persistir: se não ganhou o santo enthusiasmo, com que os martyres se encaminhavam para o supplicio, alcançou ao menos aquella frieza apathica, da mais entranhada abnegação.
Deixou de se pertencer. Fez-se cadaver, transformou-se em instrumento da vontade de seu pae, instrumento inerte, impassivel, sem vida, sem pensamento proprio. Não tivera animo para se matar; mas definhava-se lentamente n’aquelle doloroso suicidio moral.
Alguns dias depois da scena que se passára entre o pae e a filha, Estevam recolhia do trabalho cantando, e todo enlevado na sua Rosa, que julgava não vêr, havia tanto tempo. A voz melodiosa corria nas voltas do caminho e repetia-se mais affinada pelos echos de um monte proximo.
Ouvira-o Rosa, que abatida, e alheia ao mundo estava mais cahida que sentada n’uma cadeira, com os olhos pregados n’uma imagem de Senhora das Dores, que tinha perto da cama; palpitou-lhe de novo o coração no peito; aquella voz abalou-a como o choque da pilha, e sem se lembrar do que fazia, cedendo ao impulso, que tantas vezes a movera, correu à porta, ao mesmo tempo em que Estevam se aproximava do limiar.
Ao vêl-o porém fugiram-lhe de todo as forças e caiu-lhe desmaiada nos braços. Ao longe parecera-lhe notar na sombra o vulto ameaçador de seu pae:
—Rosa da minha vida, que tens tu, que nunca te vi assim? exclamára Estevam recebendo-a nos braços, torna a ti, sou eu, é o teu Estevam!