—Ai! quanto me custa que voltasses!

—Bem sei. Deveria ter morrido, não é assim? um homem como eu, que ninguem estima, que não tem affeições n’este mundo, que vive, como o espargo no monte, que embora procure lançar raizes na terra lh’as arrancam como o escalracho, devia morrer. Não serve de nada, não deve viver, tens razão.

—E quem te diz que assim seja? Quem te diz que não ha quem te ame, quem ainda se dedique por ti, quem te não esqueça nunca. Ah! Estevam, os homens não comprehendem o coração da mulher!

—Não comprehendem, não. A mulher, santa creatura, na verdade! A mulher, que mente ao marido, mente, ao amante, a mulher que se enlaça como a hera no coração do homem, cravando-lhe cada vez mais fundos os espinhos, roubando-lhe cada vez mais a vida. Não te comprehendi, Rosa, devia agradecer-te, porque pertences a outro, porque hontem dormiste ao lado d’outro, porque d’aqui a pouco vaes deitar-te no seu leito. Devia agradecer-te não é assim? Dize, anda, bem vês, que te vou comprehendendo.

—Que mal te fiz para me tratares com esse desdem?

—Que mal me fizeste? Nenhum! Eu é que fui um louco, eu é que errei, quando prendi a minha vida á tua, quando te entreguei a minha sorte, quando em ti puz a minha esperança. Eu é que fiz mal, quando me deitei a amar esse amor, que tantas vezes me juraste, quando depositei fé nas tuas palavras, que pareciam tão sinceras, quando pensei que havias de ser minha, porque assim m’o juráras mil vezes, eu é que mereço castigo, porque confiei na sinceridade do teu coração, porque loucamente credulo não me persuadi nunca de que fingisses tão bem, que houvesse em ti dissimulação tão grande.

—Se soubesses quanto tenho padecido, não me fallavas de certo assim!

—E eu! Julgas porventura, que te sumiste um momento sequer da minha ideia? Pensas que te não vi sempre diante de mim, nas tribulações da vida, nas ondas do mar, nos sertões d’Africa, nas extensões do céo... Sempre, sempre! Pensas que não me lembrava sempre, que eras d’outro, tu que só poderias ser minha! Pensas, que não me deram por doido; que me não arrojei ao mar, por mais d’uma vez, para lá ficar para sempre?... Se não fosse terem-me salvo, já hoje te não inquietava!... Pensas...

—Não continues! Estamos a aggravar uma ferida que não póde sarar mais! Antes não nos vissemos!

—E assim me despedes! Bem m’o dizia o coração! Falsa!...