VII
A gallinha da minha visinha...

Já era o sol posto havia um quarto de hora. Tocára a largar o trabalho, e cada qual recolhera para a sua casa: uns sósinhos, pelas azinhagas fóra, se mais tresmalhados moravam; outros, em rancho, se poisavam juntos n’alguma terra proxima.

André Pimenta, um dos trabalhadores mais fallados dos sitios onde este caso aconteceu, deitára a enchada ao hombro, e enfiára-lhe o cesto do jantar, de maus modos e sem dizer um Deus os ajude aos companheiros, coisa para estranhar n’um homem maneiro e pratico como elle era; entestou para as bandas da casa, sem dar palavra e com cara de curtir sezões.

Foi grande fallada na malta por causa d’este passo. Nunca o tinham visto tão esquerdo, nem de tão má catadura para os amigos. E d’ahi, andára todo o dia a fugir com o corpo ao trabalho, e a resmungar com os seus botões, como quem lhe roía alguma coisa lá por dentro.

Ou estava doente o pobre do homem; ou lhe tinham dado quebranto.

Porque até então ninguem lhe pozera o pé adiante no trabalho e ninguem o levára á parede em alegrias e cantigas. Andava sempre mais contente do que a cigarra e mais esperto do que o pardal.

O que teria o André Pimenta?

N’estes pontos de interrogação viera a gente toda da quinta do Chibanta ao logar da Rabiça fazer o farnel para a semana, porque era n’um sabbado e tinham recebido a féria: em perguntas e conversas deitaram até defronte da casita onde elle morava e onde estava ainda, muito bem amezendado n’um poial á entrada da porta, e tão pasmado, que parecia ter-lhe um ar mau passado por cima, n’aquelle logar mesmo.