—Boas noites, tio André!

—Adeus, tio André, quer alguma coisa da Rabiça?

Estas perguntas, com mais ou menos variantes, lhe dirigiam os pobres ganha-pães, sem que obtivessem resposta, além de um resmungar inintelligivel, que de má vontade saiu do peito de André, e que se fez ouvir sem que abrisse a bocca.

Os maltezes olharam-se, encolheram os hombros, entenderam se pelos olhos: e, cada vez mais admirados, seguiram para o logar.

O caso era para dar que fazer até mesmo a um escrivão!

André fôra sempre um bom trabalhador e um honrado chefe de familia. Depois de andar um santo dia na sua labutação, não havia para elle maior regalo, do que vir de noitinha brincar com os pequenos ou conversar com a mulher, emquanto se lhe não apromptava a ceia e não tocava a deitar. Ao portal da casa, de verão; de inverno, sentado ao pé da chaminé n’um banco que elle arranjára em horas de sesta.

N’aquella casa não se conhecera nunca cirurgião nem boticario, e não constava pela visinhança que se lá tivesse ralhado nunca. Pois a lingua d’aquella gente não perdoava, nem ao padre prior!

Mas, quando tocava ao André das Furôas, (assim se chamava ao sitio onde assistia) ou á Magdalena da tia Ignacia, todos diziam á uma, que era um casal em que se não podia pôr bocca, e que viviam tão socegados, como Deus com os Anjos.

Entretanto nem só os camaradas haviam extranhado André n’aquelle dia; Magdalena e os pequenos tinham ficado passados, quando o haviam visto chegar ao pé da porta, atirar com a enchada e o cesto para o meio da casa, como quem atirava com o diabo á rua e deitar-se para cima do banco, sem dizer nada nem á mulher nem aos filhos.