—Não vens cear, homem, é já tão tarde?
—Não; foi a resposta secca e desabrida como badalada tangida rapida por mão inexperiente; e ficou-se.
—Que tens tu, homem, nunca te vi assim?
—Pois tu não sabes, que ha homens que não precisam de andar agarrados a uma enchada todo o dia para ganhar o pão de seus filhos?
—Sei, homem, que se lhe ha de fazer; são cousas do mundo!
—E nunca m’o disseste?
—Para quê, André; valha-me a Senhora da Madre de Deus, nunca pensei que te dessem cuidado essas cousas!
—Que me não dessem cuidado! Mulher de... não sei que diga! Pois eu, um homem como os mais, que nunca fiz mal a ninguem, que me tenho feito em postas para os sustentar a vocês; eu, se ámanhã me desse um estupor, ia para o hospital; por lá morria ao Deus dará, e vocês ficavam por ahi a pedir esmola!
—Mas, que se lhe ha de fazer, se nascemos pobres?
—É em que eu tenho andado todo o dia a matutar, porque hão de uns nascer pobres, e outros ricos; porque hei de eu não ter nada, e o sr. Manoel Fernandes, ha de ter mais de uma duzia de quintas, cada qual maior, cada qual que bastava para vivermos todos descançados: