—Queres reformar o mundo? Tens inveja, André, e inveja do patrão, que nos faz tanto bem?
—Quem te falla em inveja! Se eu me lembrasse de que era invejoso dava um tiro n’estes miolos. Eu não olho para as mãos do sr. Manoel Fernandes, que merece... verdade, verdade, e que é um homem ás direitas; mas eu não sou somenos e se tivesse uma d’aquellas quintas, ao menos; trabalhava, que não nasci para vadio: mas sem pensar no dia de ámanhã, sem tremer com a idéa do que lhes póde acontecer.
—Por amor d’isso não te rales, homem; respondeu-lhe uma voz meio alegre, meio reprehensiva ao pé d’elle.
Era o sr. Manoel Fernandes, que saindo a dar uma volta parára perto do grupo, e entrára assim na conversa, poisando a mão direita sobre o hombro de André.
Este enfiou, Magdalena entrou a tremer, e os pequenos, comprehendendo que uma nova scena se ia passar, approximaram se curiosos do logar da acção.
Houve um momento de silencio geral, emquanto os diversos actores se entre olhavam e reconheciam. Por fim André, com aquella giria saloia, que participa da sagacidade dos selvagens, conhecendo que a defeza era difficil, tomou a offensiva.
—Ora, v. s.ª, assim a escutar o que diz cada um á sua mulher, sr. Manoel Fernandes!
—Qual escutar, nem meio escutar, tornou este entre serio e risonho pois que percebera a manobra, não ouviste nunca, que, palavras leva-as o vento? Estavas para ahi a parolar alto e bom som, e não querias que ouvisse? Só se viesse pela charneca adeante com as mãos nos ouvidos.
—V. s.ª tem razão, tornou Magdalena interferindo, como o poder moderador no systema constitucional, mas v. s.ª bem disse que palavras leva-as o vento, e o meu pobre homem apoquentado da sua vida, não admira, que desabafe...
—Ninguem lhe diz o contrario, santinha, e d’ahi bem falla o rifão: quem escuta...