De madrugada André, com cara de morte de homem, encaminhou se para a Chibanta. Vergavam-lhe as pernas pelo caminho; não ia contente comsigo, nem com a sua consciencia. Parecia outro.

O sr. Manuel Fernandes esperava-o ao portão da quinta. Uns quês de ironia transpareciam no rosto alegre do fazendeiro.

—Melhor cara traga o dia da ámanhã, homem, mofina te deu, que tão amargurado vens! Parece que não pregaste olho!

—Eu bem sei que v. s.ª me vae despedir; mas não é porque eu faltasse á obrigação...

—Que tens tu homem, mordeu-te bixo?

—É que v. s.ª...

—Bem sei o que vaes dizer, mas o que hontem te disse, está dito, hoje começas a ser meu feitor e para o deante fallaremos...

André duvidou ainda e só depois do fazendeiro o ter apresentado aos trabalhadores, como seu substituto é que começou a entrar em si, parecia-lhe tudo um sonho.

Em quanto lhe ia dando as instrucções necessarias, e lhe explicava por meudo o grangeio da fazenda, o sr. Manuel Fernandes sorria-se vendo que André meneava a cabeça com ares de profundo entendedor, e respondia a tudo: já entendi, deixe estar, não tem duvida. O velho lavrador não acreditava n’aquella proficiencia, e lá de si para si amolava o caso. Tanta confiança mostrava porém o novo caseiro, que, depois de acabada a vistoria, mandou o entrar para a casa principal da habitação, que accumulava as funcções de casa de jantar, escriptorio e cosinha, e disse-lhe:

—Oxalá que me enganasse homem, queria-te dar uma licção e mostrar-te que nem tudo é o que parece, que para grande náu, grande tormenta e que cada qual sabe as linhas com que se cose. Se a inveja é feio peccado, não é culpa menor julgar as coisas pelas apparencias. Comecei, como tu, pobre, enriqueci por felicidade, mas sempre honradamente; ainda assim, não poucas vezes me têem lembrado, com saudade, as noites, em que, ralado com o trabalho, mas sem cuidados, atirava com o corpo para cima da enxerga, sem deitar contas á vida porque a féria no fim da semana pagava tudo.