O sr. Manuel Fernandes voltou costas e seguiu no seu passeio: apenas desappareceu no atalho, Magdalena e André olharam-se espavoridos e como receiosos, e por algum tempo estiveram sem dar palavra; por fim Magdalena voltou-se para o marido, para o accusar, segundo o costume das mulheres em semelhantes occasiões.

—Para que havias de fallar, André?

—Então nem queres ao menos, que desabafe. Anda um homem ralado de trabalho todo o dia, e nem ao menos ha de ser senhor de dizer duas palavras em sua casa!

—E se elle te despede?

—Não faltará onde dê cabo do corpo?

—Elle parecia fallar sério!

—Ainda acreditas! Bem me fio eu no que elle disse: esteve a divertir-se com a gente. Má raios...

—Cala-te André, atalhou rapidamente Magdalena, cala-te, póde ainda estar por ahi, e quem sabe, talvez o homem faça o que disse.

E em duvidas decorreu a noite. A peior, que desde que eram casados tinham passado. Ora a esperança lhes surria, ora o receio os amedrontava; ora acreditavam, ora descriam. Pela primeira vez nem Magdalena nem André provaram da ceia, e só as creanças, que não comprehenderam nada, comeram como do costume, e adormeceram com o mesmo descanço.