Parecia que a influencia sinistra d’aquellas paragens se estendera tambem áquelle homem: condizia com tudo que o cercava.
Era alto e ainda novo; mas o tempo e os pesares tinham-n’o curvado e encanecido. As feições eram duras, carregadas e tristes, as faces cavadas e cheias de rugas, a pelle tostada e aspera, os cabellos mal tratados e grisalhos, as barbas compridas, em desordem e grisalhas tambem; o corpo estava coberto de farrapos, a cabeça resguardada por um velho chapeu já sem abas e os pés mettidos n’uns tamancos muito usados, que quando se levantou repercutiram por um modo estranho batendo nas pedras.
Era como a personificação do desconforto ao pé das ruinas, como a desillusão da vida junto á morte.
O tio Joaquim, ao dar com os olhos n’elle, resmungou por entre dentes—até os brutos o temem;—correspondeu a um—boas noites,—que nos dirigiu, metteu o cavallo a meio trote, eu imitei-o, e dentro em pouco tinhamos perdido tudo de vista.
Dias depois vim a saber pelo tio Joaquim quem era o guarda do cemiterio, e qual a sua historia.
II
Manoel começára de pequeno n’um navio mercante, e em pouco chegára a piloto pelo seu bom porte e bravura. Era um rapaz valente como as armas, destemido como poucos, desembaraçado como ninguem a bordo e que entendia da manobra ás direitas.
Não havia tempo nem mar que lhe mettessem medo: e por mais d’uma vez salvára o navio em casos apurados, pela sua presença de espirito.
Sempre alegre, sempre a cantar, parecia que não havia tristezas que com elle entrassem, nem penas que se lhe pozessem diante.