Tinham-lhe nascido os dentes no mar, calhára no navio, e fóra d’elle andava triste como o peixe fóra da agua; o pobre do rapaz, tambem, era engeitado, e vivia cá n’este mundo sem ninguem que lhe quizesse.
Chegou lhe entretanto occasião de deitar ferro em amor e de arranjar amarra de má morte, pois quebrou no primeiro temporal e que deixou abrir-se e naufragar o barco de encontro aos baixios da vida.
Manoel teria dezoito annos se tanto, quando uma tarde, indo em penitencia á egreja de Nossa Senhora da Penha a cumprir uma promessa que fizera em hora afflicta, encontrou a um canto da egreja, ajoelhada a rezar tambem, uma rapariga nova, bonita e toda coberta de luto.
Seguiu-a, soube onde morava, requestou-a e ajustaram casamento, que só dependia d’uma viagem redonda ao Brazil, em que o rapaz contava apurar os vintens de que precisava para pôr a casa. E assim, entre promessas e esperanças, viveram dois annos, que tanto medeou entre o dia em que pela primeira vez se tinham visto e aquelle em que ia partir para a malventurada viagem.
Foram os melhores da vida de ambos. Ái! quem tem vivido de illusões e de esperanças, sentindo um coração a afinar pelo seu no pulsar e no tremer, uma alma unir-se á sua cada vez a mais a mais até se confundir de todo; quem tem a registar esses dias em que o tempo vôa nos instantes dos colloquios para descançar, e demorar-se nos seculos que os separam; quem tem encontrado sempre na dôr e no prazer companhia e affeição, amor sempre, dedicação e sentimento, como só a mulher sabe ter, e a mulher que ama deve resignar-se para todas as provas, para todos os padecimentos, porque já antecipadamente tem gosado o maior quinhão de felicidade que a terra lhe póde dispensar.
N’este viver do ceu tinha passado Manoel dois annos, e tão breves lhe tinham parecido, que na hora da despedida dava a vida inteira por um dia só mais que fosse.
Mas era preciso. O navio partiu e o piloto acompanhou-o em corpo, deixando a alma em terra, e com a alma a esperança e a vida.
Nos primeiros tempos esteve como doido. Por mais d’uma vez o navio correu perigo sem que elle désse por isso, sem que aquella valentia d’outros tempos accordasse nos momentos d’afflicção; parecia barco sem leme ou alma penada sem sepultura: de nada dava fé nem a coisa alguma attendia. Depois o tempo gastou as maguas, as rugas ficaram no rosto, a saudade no coração; mas o marinheiro tornou a ser o que era, menos na animação e na alegria, que d’essas só Martha podia dizer o que era feito.
Teve má sina a viagem. Avarias, arribadas, empates de vendas, difficuldades de carga demoraram tres annos o Corsario em vez dos seis mezes, que deviam de ser. Em Lisboa correu voz de que se perdera, e os proprios donos do barco descoroçoaram de o tornar a vêr.
Nos primeiros tempos Martha, sempre que podia, chegava ao escriptorio para saber noticias, depois foi-se demorando mais até que por fim deixou de apparecer. Bem sabia que Manoel, apenas saltasse em terra, correria onde ella morava: para que havia de perder tempo, de que precisava para viver e cuidar do enxoval?