1867 Agosto, 3.—Amigo do coração:—Hontem de manhã fomos esperar, no cemiterio dos Prazeres, os restos mortaes do nosso querido e desventurado amigo Rodrigo Paganino. Fomos sete, apenas, os que nos lembrámos de cumprir a dolorosa missão: José Elias Garcia, Manuel Roussado, Ricardo Cordeiro, Carlos Barreiros, Eduardo Gomes de Barros, José d’Avellar e eu. Ninguem mais! O ceu estava alegre; o sol brilhava com o natural esplendor do estio. Parecia uma pungente ironia á tristeza que apertava os nossos corações, em presença d’aquella sepultura! É porque os jubilos são apanagio do ceu, e as lagrimas a triste condição do mundo! A morte, meu amigo, phenomeno naturalissimo, trivialissimo, mas que nos espanta sempre, quando vem ferir o homem na força da vida, e o arrebata no momento em que a sua intelligencia começava a dar luz á humanidade, a morte, n’essas circumstancias, parece-nos um impossivel. Olhando para a arvore secular que abrigou á sua sombra o viajante, que floresceu em centos de primaveras, que produziu abundantissimas colheitas de fructo, se a vêmos cair falta de seiva, dizemos: «Cumpriste a tua missão; deste-nos sombra; embellezaste-nos com as tuas flôres; saciaste-nos com os teus fructos; chegou a tua hora; caiste porque eras da terra», e saudamol-a com veneração! Mas vendo a arvore robusta, que abre com as flôres do seu primeiro abril, flôres que são prenuncio de magnificos fructos, fulminada subitamente pelo raio, enfurece-nos a protervia do raio! Assim a morte, quando vem cortar o genio em flôr, nos produz muitas vezes o desespero! Rodrigo Paganino saía apenas da adolescencia, quando caiu no tumulo. Era medico e escriptor. Restam d’elle algumas folhas volantes, perdidas por aqui e por além, e um livro (os Contos do tio Joaquim), livro que ha de viver ao passo que muitas composições laureadas pelo capricho de hoje, morrerão ámanhã. Todavia, isso que Paganino nos deixou, não são mais do que as primicias do muito que tinha para dar aquelle grande talento. Rapida, brilhante, e, dolorosissima foi a carreira de seus dias! Ha quatro annos, n’uma carta que escrevi para a imprensa, desenhei o quadro que apresentava a familia de Rodrigo Paganino, pouco antes d’elle expirar. O pae, as duas irmãs, modelos de raras virtudes, e a mãe, pedindo em secreto, a Deus, um logar na mesma cova do filho. Tres annos a fez esperar a Providencia; finalmente concedeu-lhe a appetecida graça. Hontem, se Paganino fosse vivo, contava trinta e dois annos. Trinta e dois annos que a mãe o déra á luz do mundo; que o beijára entre dôres e alegrias, depondo o filho no berço; o filho hontem pagava-lhe essa fineza indo repousar ao lado d’ella, no berço do eterno descanço, onde para aquelles que padeceram com resignação, e que esperaram a morte, arrependidos dos erros mundanos, brilha a aurora da bemaventurança! O padre que acompanhou do Alto de S. João para os Prazeres os restos mortaes do nosso pobre amigo e que celebrou a missa, que nós ouvimos, pelo eterno descanço do nosso finado querido, fôra companheiro de estudos de Rodrigo Paganino. Terminada a missa, conduzimos o feretro para em frente do jazigo de familia onde havia de ser soterrado. Perguntou alguem, se queriam que o caixão se abrisse. José Avellar, de todos nós o mais intimo de Paganino, disse com a expressão tocante e varonil da sua bella physionomia: quero eu vêl-o. Mas que viu?! Quatro ossos e uma caveira a que se adheria uma pouca de terra! Era quanto restava do corpo que abrigara aquelle gentil espirito! O caixão foi collocado sobre o caixão da mãe, e nós, na extrema despedida, votámos á memoria do amigo quanto lhe podiamos votar: um adeus, e uma lagrima! Concluo esta carta, meu querido amigo pela verdadeira conclusão da dôr, que são as lagrimas. Um aperto de mão; volta quanto antes d’esse ponto do Alemtejo onde estás; lembra-te do anno passado!
Teu
Bulhão Pato.
I
O tio Joaquim
Ha de haver dez annos proximamente, fui passar o inverno a uma quinta, pouco distante de Lisboa; porque, segundo diziam, corria perigo de vida, se não mudasse de ares quanto antes.
O campo é sempre bello. Cada edade do anno imprime-lhe uma feição, differente embora, mas formosa sempre: e o inverno, apezar da sua fria nudez, tem attractivos, como os que nos fazem amar muitas estatuas antigas, em que a falta de roupas mais realça a magestade.