Depois que commettera o assassinato tinha ficado como louco, ou peior ainda, porque parecia idiota.
Um golpe d’aquelles, uma mudança d’aquella qualidade!
Quando esperava colher o fructo de uma vida trabalhosa e honrada nos braços da sua Martha, vêr-se de repente criminoso, assassino e deshonrado; toldarem-se-lhe na cerração as estrellas, que o guiavam n’esta vida, o astro do amor, e o astro da honra: eram provações de sobra para deitarem por terra castellos mais fortes, e almas ainda mais valentes.
Manoel não morreu, mas fraquejou para sempre. O mesmo d’outros tempos nunca mais tornou a ser. Nunca mais o viram rir, cantar não o ouvio mais ninguem: e as rugas, que se lhe cavaram no rosto, tambem se lhe entalharam no coração.
O amigo da humanidade, que inventou as prisões em commum e a grilheta, foi de certo um grande perverso. Só a um requinte de malvadez se póde attribuir um invento que envolve e reune no mesmo castigo, na mesma atmosphera de perversão, innocentes e criminosos, pois que assim comparados uns com outros se podem chamar: e que não contente com isso lhe accrescentou a grilheta, exposição ambulante, aperfeiçoamento da que, em tempos de barbaridade, se applicava as mais das vezes a victimas do que a réus.
A influencia desmoralisadora d’aquelles dez annos não alcançou todavia o antigo piloto: quasi que nem os percebeu, tudo era para elle extranho, inexplicavel, incomprehensivel; um pesadello que durava muito, e de que esperava accordar um dia.
Entrára na cadeia de vinte e um annos; saia sexagenario, eis toda a differença. Aquelles dez annos valiam-lhe por quarenta; e, mocidade, alegria, sentimento, coração, vida, enthusiasmos d’outro tempo, crenças e aspirações, tudo deixara ao sair, com a grilheta que depozera.
Só não perdera um sonho atroz, que quasi todas as noites o perseguia, e que, salvo pequenas mudanças, era sempre o seguinte:
Navegava a bordo do Corsario. De repente o Oceano transformava-se em largo mar de sangue: debruçado na amurada via-se lá em baixo a braços com um homem, que lhe ia roubar a sua Martha, innocente como os anjos, pura como a estrella da manhã, serena como o alvorecer de estio em alto mar, e que d’entre nuvens no céu lhe sorria amor. A lucta continuava encarniçada, elle fóra de si puchava pela faca; mas, por mais diligencia que fazia, só alcançava Martha, o seu contrario escorregava-se d’entre os braços escapando-se-lhe aos golpes. Depois o mar de sangue envolvia-o todo, ia já a affogar-se, e a voz de Martha eccoava-lhe aos ouvidos clamando; assassino, assassino. As ondas passavam-lhe por cima da cabeça, o marulho das aguas, o sussurro do vento casavam-se com uma voz confusa, que lhe baqueava nos miolos, dizendo-lhe: não matarás.