Nos primeiros tempos, em que saiu, ainda teve esperanças de voltar á vida antiga; mas todos, que procurava, se affastavam d’elle com terror. Desesperado, momentos houve em que lhe passou pela cabeça vingar-se de uma sociedade, que castigava n’elle um crime mais dos outros do que seu, e seguir a estrada do mal, já que lh’a lembravam, e já que lhe tornavam todas as outras impraticaveis; mas o principio do bem e as idéas que recebera com a educação, predominaram sempre.
Custára-lhe muitas noites d’insomnias e de phrenesi, horas de amargura, em que chegou a desejar a vida da cadeia, occasiões em que a ideia da morte lhe trabalhou muito na cabeça.
Uma noite, pelas onze horas, vagueava pelo caes do Sodré depois d’um dia passado em inuteis pesquizas de trabalho, e em repetidas e semelhantes recusas. O céo estava carregado, o vento soprava em lufadas da barra, o rio estava revolto, as aguas negras, a escuridão negrejava em tudo. Debruçado sobre o caes, remontou-se pelo pensamento áquella tarde em que, onze annos antes, desembarcára no mesmo sitio. Como tudo tinha mudado. Que alegrias então, que tristezas hoje! A agua começou a namoral-o debaixo, o desalento a convidal-o em roda, ia a precipitar-se, um braço susteve-o, uma voz exclamou: cobarde!—Era o braço de um antigo companheiro, a voz d’um velho amigo, marinheiro como elle; mas muito mais pobre, muito mais velho, e que pedia esmola encostado ao parapeito do caes.
Aquella palavra e aquelle exemplo fizeram-n’o renunciar para sempre ao suicidio. Para não ser cobarde muitas vezes em temporal desfeito se resolvera a morrer, agora, para que lh’o não chamassem, resignava-se a viver. Era maior o sacrificio, mas para o compensar estava a ideia de que podia ser util ao velho Estevam: e a companhia d’um amigo que lhe apparecia nas proximidades da sepultura.
E... porque não havia de concorrer tambem?
A esperança, que mesmo sem fundamento algum, ainda lhe dizia que vivesse, e o acompanhava, como sempre, nos mais atormentados lances?
No dia seguinte, com o peculio que por seu trabalho juntára na cadeia, comprava um velho barco de pesca, e ambos tomavam posse da propriedade commum não contentes, mas resignados, baptisando-a—Desgraça,—pelo muito que ambos haviam padecido.
Se o trabalho faz minorar e esquecer as maguas, nenhum modo de vida se creou melhor para o esquecimento do que a vida do pescador. A lida continua e a lucta permanente com o mar e com o vento, a vigilia, o emprego de todos os sentidos, trazem o que n’ella se emprega sempre voltado para o seu trafego e sempre estranho ao mundo com o qual só de leve trata: e d’ahi para Manoel aquelle labutar tão semelhante ao de outros tempos, aquella vida, reflexo da outra, reflexo pallido em que o rio substitue o mar, em que o barco substitue o navio, mas que nos lances e no trato, tanto lh’a recordava, era um paraiso, depois d’aquelle inferno porque passára.
Estevam, que o infortunio lhe offerecera por companheiro, serviu-lhe de amigo e de auxilio durante tres annos, em que gradualmente se lhe foram esvaecendo da lembrança os desgostos e as desillusões.
Se para Manoel podesse ainda haver felicidade, quasi que aquelles tres annos se poderiam dizer felizes.