Como o conde d'Arrayolos veiu de Ceuta para concordar o Infante com El-Rei, e as causas porque se presumio que estas cousas se damnavam mais

O conde d'Arrayolos a este tempo depois da morte do conde D. Fernando era capitão e governador da cidade de Ceuta, onde por ser muito amigo do Infante D. Pedro, sendo certificado do engano e malicia que n'estes feitos andavam, desejando o serviço d'El-Rei e doendo-se do Infante, para cuja perdição todalas cousas se inclinavam, se veiu d'Africa á côrte como homem virtuoso e de justa tenção, e como quer que seu pai e seu irmão tivesse por contrairos, começou de entender com muita diligencia na concordia entre El-Rei e o Infante. Mas o duque seu padre, e o conde d'Ourem seu irmão anojados muito de seu proposito, não o podendo d'elle desviar faziam com El-Rei que em muitas cousas o desfavorecesse. Especialmente não o ouvindo as vezes que o conde requeria e desejava.

E vendo elles com tudo que sua bondade não cansava, e que sem embargo das fortes contrariadades que recebia tomava por fundamento trazer á côrte o Infante para que per si mostrasse a limpeza de suas culpas, fizeram novas fingidas, e com côres e signaes que pareciam de certeza, que os mouros vinham poderosamente cercar, ou tinham cercado Ceuta, com que o fizeram volver sem alguma conclusão em Africa, d'onde não retornou, salvo depois da morte do Infante. Porque então leixou livremente a capitania a El-Rei, que a deu ao conde D. Sancho.

E não foi o conde d'Arrayolos só a que esta enganosa quebra d'El-Rei com o Infante parecesse assi mal como era razão. Porque muitos outros bons ás vezes publica, e as mais secretamente, quizeram com El-Rei em sua concordia entender, mas os imigos do Infante punham ao coração d'El-Rei com informações erradas taes defensivos, que a lembrança de seus merecimentos para seu galardão e limpeza nunca na memoria d'El-Rei podesse entrar. Pelo qual o Infante apressado em sua alma d'estes continos padecimentos, suspirando pelo conhecimento da verdade, que havia por mais principal remedio de sua salvação, escreveu a El-Rei por seus confessores, e por outras pessoas religiosas muitas vezes, pedindo-lhe em todas por mercê, com palavras de muita piedade e com grande acatamento e obedencia «que por testemunhos e induzimentos de seus imigos o não quizesse julgar nem tão maltratar, e houvesse por bem arreda-los de seus ouvidos, e assim manda-los sair de sua côrte, como a elle por menos causas fizera; porque sendo fóra, elle não haveria seus mandados e determinações contra si por tão graves nem tão suspeitas como então lhe pareciam, e as cumpriria sem agravo nem escandalo, e lhe obedeceria com muito amor e lealdade, e que lhe lembrasse a grande perfeição e amor em que o criara, e a muita verdade e acatamento com que o sempre servira, e ao pouco que durando seu regimento em sua fazenda e estado tinha acrecentado.» E principalmente por confirmação de sua boa vontade lhe pedia «que não se esquecesse que o casara com sua filha que tanto amava, e não fôra com fundamento e desejo de apagar, mas perpetuar sua vida e real geração.»

E com estas cousas que traziam fundamento de razão e verdade, e por a condição natural d'El-Rei ser inclinada a todo razoado bem, muitas vezes se despunha a lhe pesar dos procedimentos e agravos que contra seu tio fazia, e certo parecia que as cousas de seu damno e abatimento em que consentia eram confrangidamente e sem sua vontade. Porque algumas pessoas dinas de fé e autoridade afirmaram, que uma das causas principaes porque estes feitos entre El-Rei e o Infante mais se damnaram, foi por entrevirem n'elles cartas falsas; porque umas davam a El-Rei em nome do Infante, que o Infante nunca mandara, e outras recebia o Infante com signaes d'El-Rei, em que El-Rei nunca assignara, fazendo os contrairos do Infante poer n'ellas as sustancias com que os corações de uma parte e da outra mais se damnassem.

E por certo presumir-se assi não era sem caso; porque cotejadas as cartas que n'este tempo se acharam escriptas da mão d'El-Rei para o Infante com outras muitas feitas por escrivães que lhe mandavam, bem parecia que as da mão d'El-Rei eram proprias, e de filho para pae, e as dos escrivães muito alheias; porque mostravam ser de Rei imigo para vassallo desleal, e em tanta contradição de cartas de uma só pessoa para outra, e em um tempo e sobre uma mesma sustancia, claro se podia conhecer que aquellas em que parecesse a boa vontade eram proprias e verdadeiras d'El-Rei, e as outras eram acidentaes e postiças, ou o mais certo constrangidas.

CAPITULO XCVI

De como El-Rei mandou vir o duque de Bragança á sua côrte, e como o Infante D. Pedro determinou que em auto de guerra como vinha não leixaria-o passar for sua terra

El-Rei se partiu de Cintra no começo d'Outubro de mil e quatrocentos e quarenta e sete para Lisboa, d'onde por suas cartas mandou vir á sua côrte o duque de Bragança, de que o conde d'Ourem seu filho mostrou a El-Rei para seu conselho e serviço grande necessidade, e o aviso secreto que o duque de seu filho houve, foi que viesse mais em auto de guerra que de paz; porque já tinham commovido El-Rei para ir logo sobre o Infante D. Pedro. O qual pelas espias que com todos trazia foi logo certificado dos percebimentos de gentes e armas que o duque para isso fazia, e como fazia fundamento de vir e passar em tal auto, e sem prazer do Infante por suas terras, e sobre o que o Infante n'isso faria, de resistir com força sua passagem, ou a dessimular com paciencia, teve com os seus conselhos, em que houve votos desacordados, e finalmente o Infante seguindo a opinião do conde d'Abranches e d'alguns outros que com a sua conformaram, determinou com armas lhe resistir, mostrando que recebia de Deus muita mercê despoer-lhe assim de uma pessoa a elle tão damnosa, vingança tão bem aparelhada e tanto desejada, pelo qual de Coimbra se foi á sua villa de Penella, d'onde as novas de seu fundamento correram logo á côrte d'El-Rei que era em Santarem, e com todo o desfavor do Infante alguns fidalgos seus amigos e servidores que eram na côrte, sentindo que em tal tempo teria d'elles necessidade, se vieram logo para elle, assim como Aires Gomez da Silva com Fernão Tellez, e João da Silva seus filhos, e Luiz d'Azevedo, e Martim de Tavora, e Gonçalo d'Atayde, e outros muitos de menos condição, e n'este caso Alvaro Gonçalves da Tayde conde da Atouguia e seus filhos, sendo criados e feitura do Infante, pelo não irem servir n'esta jornada, foram como ingratos á sua criação e bemfeitoria geralmente bem reprendidos, especialmente que para sua encuberta usaram de praticas, e fazendo-se manhosamente e por suas astucias prender e impedir, para não irem acompanhar e servir o Infante, fazendo-o já desleal e contrairo ao serviço e obediencia d'El-Rei.

O Infante D. Pedro, porque a este tempo ainda tinha no Infante D. Anrique sobre todos grande esforço e muita confiança, mandou logo a elle que era em Thomar, João Pirez Diogo, seu cavalleiro, e por elle lhe enviou notificar e trazer por extenso á memoria os muitos agravos e desfavores que d'El-Rei por seus imigos tinha recebidos, e como lhe parecia que estas cousas, segundo as via guiadas do odio e viradas contra toda razão e justiça, que apertavam muito para sua destruição, avisando-o mesmo por mais claro argumento d'isso, da maneira em que o duque vinha, e como a seu despeito queria passar por sua terra e com que fundamento, pedindo-lhe que em tanta e tão injusta pressa e angustia como esta em que estava, elle por sua bondade e com seu valor e auctoridade, pois era em sua mão, lhe quizesse valer, afirmando se, porém, «que seu proposito e determinação era impedir por força e sem escusa a passagem do duque, pois vindo em sombra de poderoso e tendo outro caminho por que sem escandalo poderia ir á côrte, determinava vir pela Louzã, que era sua villa, sem lh'o primeiro fazer saber».