E o Infante D. Anrique por então lhe respondeu, «que do que então em seu caso, e em tal tempo melhor lhe parecesse, lh'o enviaria logo dizer». Como enviou uma vez por Fernão Lopes d'Azevedo, Comendador Mór de Christus, e outra por Martim Lourenço, tambem Cavalleiro da Ordem, cuja conclusão foi: «que o Infante D. Pedro não fizesse de si alguma mudança, até elle Infante D. Anrique não ser com elle em pessoa, para que dizia que se aparelhava».
CAPITULO XCVII
Do recado que o Infante D. Pedro enviou ao duque, sendo já em caminho
O Infante D. Pedro como era prudente, e por não poer em seu proposito trabalhos escusados, e não fazer despezas baldadas e não necessarias, antes de o duque passar o Mondego, para saber a tenção com que vinha, enviou a elle primeiro Vasco de Sousa, fidalgo de sua casa, e por virtude de uma carta de crença que levava, em presença dos que com elle vinham publicamente lhe disse:
«Senhor, o Infante, meu Senhor, soube de vossa vinda, e d'este auto de guerra em que com tantas gentes vindes, e é certificado, que quereis assi, sem seu prazer, passar por sua terra, de que é muito maravilhado, assi por esta novidade de gentes armadas, que sem necessidade d'El-Rei, seu Senhor, nem do reino levaes, como por lh'o não fazerdes primeiro saber, que pois assi o determinaveis, que quer saber de vós em que maneira vos ha de receber, e que se houver de ser como irmão e amigo, como elle deseja, que queria que vos vades chã e pacificamente, como sempre fostes, e que d'elle e em suas terras recebereis aquella honra, prazer e gasalhado, que sempre recebestes, e que se com este desacostumado estrondo d'armas quizerdes assi passar, que por quanto pela quebra e rompimento em que com elle estaes, a elle seria fraqueza e abatimento consenti-lo, saibaes que vos hade receber no campo como imigo, mas que n'este caso por escusardes os males e damnos que se d'esta viagem podem seguir, deveis tomar outro caminho porque vades, pois sem seu abatimento nem muito trabalho vosso o podeis bem fazer.»
E com isto Vasco de Sousa se despediu, e tornou ao Infante.
CAPITULO XCVIII
Da resposta do duque ao Infante D. Pedro
Após o qual o duque enviou logo a resposta ao Infante, que ainda era em Penella, por Martim Affonso de Sousa, fidalgo de sua casa, que em presença de todos lhe disse:
«Senhor, o duque meu Senhor vos notifica por mim em resposta do que lhe ora enviastes dizer, que depois que nascestes, sempre vos teve por irmão e amigo, a que desejou fazer prazer e serviço, e que agora por este vos tem, e não com menos desejo e vontade, e que por cumprir o que El-Rei lhe mandou, vae a sua côrte por esta estrada publica, e que a gente que traz não é d'ajuntamentos nem d'alvoroço como vos fizeram crêr, mas é a que o soe de acompanhar, e que de vir em acertamento seguido para a côrte caminho direito, haver de tocar vossa terra, que não sabe como seja caso d'agravo nem escandalo vosso; porque n'ella não ha de consentir que se faça damno, força, nem tomadia, sómente pedirem alguns mantimentos se forem necessarios, por seus dinheiros, como vós podereis fazer em suas terras quando por ellas de vontade, ou por necessidade quizesseis passar, e que por tanto elle determina todavia seguir assi seu caminho sem outro desvio, que vos pede que o hajaes assi por bem.»