E no começo do mez d'Abril d'este anno de mil e quatrocentos e quarenta e nove, veiu ao Infante em Penela Fernão Gonçalves de Miranda com uma grande instrução d'El-Rei, cuja conclusão foi estranhar-lhe muito algumas cousas, em especial seus ajuntamentos e o movimento contra o duque, mandando-lhe em conclusão «que se tornasse a Coimbra, d'onde sem seu mandado não saisse, e leixasse o duque sem contradição passar assi como vinha. E que se o não fizesse, que fosse certo que logo procederia contra elle assi rigorosa e asperamente, como tamanha desobediencia merecia.»
A esta embaixada d'El-Rei respondeu logo o Infante, justificando com largas razões seu proposito, concluindo «que pois sua Mercê o mandava contra sua honra e estado tornar atráz, que outro tanto devia mandar ao duque que primeiro começara, e que posto que na priminencia das pessoas de um e do outro havia em tudo tanta diferença, como ao mundo era notorio, que este caso d'ambos julgasse e houvesse por igual, e ao menos o que defendia a um, não consentisse ao outro. E que pois sua Mercê por então não tinha de gente d'armas tão eminente necessidade, mandasse que o duque passasse por sua terra em modo pacifico, e com a gente de sua casa ordenada, e que n'esta maneira o receberia como a irmão e amigo, e lhe faria e mandaria fazer muita honra e bom acolhimento, como sempre fizera, e que em outra maneira recebendo n'isso tamanha mingoa não o havia por seu serviço, pela grande parte e razão que com seu real sangue tinha» e com esta resposta o despediu.
CAPITULO C
De como o Infante D. Pedro determinou impedir a passagem ao duque, e se percebeu e partiu para isso
E porque o Infante D. Pedro foi avisado que o duque não leixava de proseguir o caminho que começara, deu logo grande trigança á sua partida, e teve conselho onde e como o esperaria, e alguns lhe aconselhavam, que para sua justificação o leixasse primeiro entrar em sua terra, mas o Infante disse que a todo seu poder o duque por aquella vez não trilharia nenhuma pequena parte da herança que possuia, e que fóra d'ella o queria esperar. Pelo qual de Penela moveu logo com sua gente e carriagem, e se foi á Lousã, e d'hi logo a uma aldêa sua que se diz Villarinho, onde soube que o duque era em Cója, couto e lugar do Bispo de Coimbra, alli concertou e proveu o Infante sua gente, e ordenou com muita destreza suas batalhas, dando a avanguarda a D. James seu filho e com elle o conde d'Abranches, e tomou a reguarda em que havia de ficar.
Alli foi ao Infante dada secretamente uma carta com letra mudada e sem signal, em que o aconselhavam que logo movesse contra o duque porque o não havia d'esperar, mas o Infante publicamente disse «que aquillo era em favor do duque assi lançado, e para elle manifesto engano com que o queriam fazer algum tal desmando, de que esperando victoria ficasse vencido; porque bem cria que o duque que tantos annos se intitulara de filho de tal Rei, e que de tanta e tão honrada gente, para qualquer pesado feito vinha tão bem acompanhado, antes conhecidamente receberia morte, que tornar atrás nem consentir em tal fraqueza, á sua honra e estado tanto contraria.»
CAPITULO CI
De uma falla que o Infante D. Pedro fez aos seus, estando todos a cavallo
Alli fez o Infante aos seus estando todos a cavallo uma comprida falla, em que pareceu pela muita prudencia e gravidade com que a disse, que já havia dias que a tinha cuidada.
Foi sua sustancia alegrar-se primeiramente no esforço, despejo, e segurança que em todos para sua honra claramente via e conhecia, e que não era sem causa; porque todolos que entre si via, poderia contar no amor por seus filhos e netos, pois todos eram seus criados e filhos de seus criados, e assi disse mui particularmente todolos agravos e perseguições, e desfavores, que d'El-Rei por induzimento do duque e do conde seu filho, e dos de sua valia tinha recebidos, com os quaes justificou as causas de sua querella, para cuja emenda e vingança ali eram vindos, e que não cressem que n'isto entrava odio nem escandalo que tivesse d'El-Rei D. Affonso seu Senhor; porque elle como mui leal seu vassallo e servidor, o reconhecia algum não, porque Deus sabia que elle o amava e era razão que amasse sobre todalas cousas do mundo. E que na criação que em sua real pessoa fizera, e na governança, paz e conservação de seus reinos, que dez annos por elle regera e defendera, quem sem paixão o quizesse consirar, acharia d'isso prova mui autorisada, e que o agravo que tinha não era da natural inclinação d'El-Rei, mas da pouca edade sua, com que madura e perfeitamente não podia conhecer os enganos em que contra si seus imigos o traziam, e que a principal causa da inimizade que seus imigos contra elle tinham, não fôra por lhes dar pouco; porque do patrimonio real com honras e titulos muito lhes tinha dado; mas porque lhe não dera todo, especialmente por não dar ao duque a cidade do Porto e a villa de Guimarães, que muitas vezes com outras cousas da corôa mui cegamente lhe pedira, e que o acrescentamento que em si e em seus filhos fizera, fôra sómente de muito amor e grande lealdade, e com mui verdadeiro desejo de servir, em que ao mais leal do mundo não conheceria avantagem; porque da herança da corôa de Portugal, não falando na que El-Rei D. João seu padre lhe dera, ainda a primeira mercê e acrescentamento seu estava por receber, e porque seus contrairos sentiram, que sua bondade e seu livre conselho acerca d'El-Rei, seriam para suas cobiças e acrescentamentos cousas mui suspeitas e perjudiciaes, trabalharam de o apartar d'El-Rei e a El-Rei do amor que lhe devia ter, e credito que lhe devia dar, e que a vinda do duque por sua terra, e na maneira em que vinha, não era com verdadeira necessidade de serviço d'El-Rei, mas sómente pelo abater, ou por dar causa com que El Rei mais se indinasse para sua destruição; porque se o assi leixasse passar sem resistencia, seria publicar fraqueza de coração com seu vituperio e abatimento, o que a elle seria grave pena e ao duque muita gloria, se lhe resistisse indo á côrte, que lh'o reputariam a desobediencia e deslealdade contra El-Rei, para o mais asinha moverem para o que tanto desejavam. E porém que por ser quem era, e decender de quem decendia, finalmente o não havia de consentir, e que tanto esforço teria de morrer sobr'isso vencido com um só page, como então tinha esperança de viver e vencer, vendo-se acompanhado de tantos e tão bons amigos e criados, e que por isso era escusado esforça-los para a vingança de suas injurias com exemplos de feitos passados, pois os via para isso tão esforçados, antes se o caso viesse a rompimento como esperava, lhes encomendava a todos mais piedade que crueza, e com os olhos alevantados ao ceo cheios de muitas lagrimas pedio perdão a Deus com palavras de muita devoção, e se encomendou a elle, e á Virgem Maria sua Madre, e feito isto mandou que se armasem e percebessem todos.