CAPITULO CII

De outra falla que o duque tambem fez aos seus em seu favor contra o Infante, e de como Alvaro Pires de Tavora lhe respondeu

O duque de Bragança não leixou de continuar sua viagem até duas legoas da Louzã, crendo que o Infante D. Pedro com todas suas ameaças não ousaria de lhe resistir, nem se moveria de Penella, assi por não quebrar o mandado e defesa d'El-Rei que para isso tinha, como pela pouca gente de que se percebera. E porém como pelas espias que trazia, soube que o Infante estava já em Serpiz, que era d'elle pouco mais de uma legoa, e vinha com determinação de peleja, foi posto em muito cuidado, e mandou alojar sua gente com aquelle resguardo e seguridade que para o tempo e caso cumpria, e ajuntou logo os fidalgos e pessoas principaes de sua companhia para ter conselho sobre o que faria, ante os quaes disse:

«Nós somos aqui tão acerca do Infante como sabeis, e já devemos crêr que vem com determinação de por força nos resistir, vêde qual será melhor, ou o esperarmos aqui, ou irmos adiante busca-lo, ou por evitarmos as mortes e danos que d'este recontro se podem recrecer nos tornarmos atrás e seguirmos outro caminho, porque aqui por agora não é dar outros meios.»

Sobre o qual houve entre elles votos desvairados, e em fim Alvaro Pires de Tavora, disse:

«Senhor, a mim parece que para quem soes, e para a determinação com que partistes, e para a gente que levaes, seria cousa mui vergonhosa, e para vossa honra de grande vituperio, tornarde-vos atrás nem uma só passada; porque em caso que para Deos fosse razoada encoberta, dizerdes que por escusardes mortes e outros danos o fazeis, o mundo com que agora vivemos vo-lo não ha de levar n'essa conta, mas estimarvo-lo-ha como é razão, por grande fraqueza e assinada judaria; soes grande imigo do Infante e elle vosso, e as mais palavras e dissimulações são escusadas. Porque a amizade que El-Rei entre vós ambos assentou, bem sabemos que foi uma fórma falsa de palavras de que nunca soubestes parte, e assi nunca a guardastes; porque depois sempre em vossas cousas vos tratastes como imigos, e vós o sabeis, e que digaes que El-Rei vos manda chamar, não é o Infante tão privado do entender, consiradas as cousas passadas e o auto em que his, que não entenda que é sem fundamento de seu mal, e de o resistir e contrariar em sua terra, sabei que como Principe e como Cavalleiro tem razão e faz o que deve, e por tanto meu conselho é, que o que elle quer fazer vós o façaes primeiro, que será irmo-lo buscar, e nos desponhamos á ventura que nos vier».

E este conselho aprovou o duque por melhor, e determinou então de o seguir. Pelo qual porque soube que o Infante o havia d'esperar no estremo e confins de sua terra, a que já estava mui chegado, foi alli com esses principaes vêr o lugar de melhor disposição para a peleja, e assi partir e escolher o campo para elles mais seguro. E des-hi volveu a seu alojamento, e fez ajuntar todolos seus, e com quanto era de pouca fala, com a contenença grave e segura lhe fez um razoamento n'esta maneira.

CAPITULO CIII

D'outra falla que o duque fez a todolos seus, em que determinou não leixar o seu caminho

Honrados criados e amigos, eu sou aqui vindo por mandado d'El-Rei meu Senhor, como vos disse, e por estas suas cartas o vereis; levo comvosco este publico caminho sem danificar nem agravar alguem como sabeis, e ora sou certificado que o Infante D. Pedro contra defesa e mandado do dito Senhor, vem por elle com proposito de por força m'o impedir, e porque eu por muitas causas que todos entendereis, sou em determinação de todavia seguir ávante, eu vos rogo e encomendo, que para qualquer trabalho e afronta que sobrevier, por serviço d'El-Rei meu Senhor e minha honra esforceis os corações, e desenvolvaes as mãos como de vós e de vossas bondades espero. E sabei certo prazendo a Deos, que a victoria é nossa sem algum vosso perigo; porque a gente do Infante é pouca para a nossa, e vem constrangida e cortada toda de temor; porque além de conhecerem o dano a que se despõem, sabem o erro e deslealdade que cometem, vindo contra a obediencia e mandado de seu Rei e Senhor. E por isso assi por sem duvida, que todos estes na sombra do medo, vendo-nos logo o leixarão. E por isso eu vos encomendo que no sangue d'estes não solteis vossas mãos e ferro a toda a crueza, pois em fim são christãos e vassallos de El-Rei meu Senhor, e á verdade innocentes, ainda que tenho grande receio á vinda do Infante D. Fernando, e do conde d'Ourem meu filho que vem detraz, e na hora do nosso ajuntamento serão comnosco, que por ventura nas mortes e danos d'estes não quererão ter esse resguardo, mas Deos o perdoe, ou acoime ao Infante D. Pedro, pois é causa d'isso, e este trabalho que por mim tomaes, eu sempre vo-lo conhecerei, e El-Rei meu Senhor tambem vo-lo deve e por meus requerimentos e intercessão vo-lo satisfará com honras e mercês, como a bons e leaes vassallos que soes; e com isto se recolheu a seu alojamento.