Foi El-Rei d'isto logo avisado por Pero Gaçalvez seu secretario, estando já com a Rainha na cidade d'Evora. E pedido com grande instancia, que a esta necessidade em pessoa quizesse prover, porque os rumores e alvoroços eram já taes na cidade, a que sem sua pessoa não se esperava resistir, á qual cousa El-Rei veiu em pessoa, e de muitos que pelo mesmo caso achou presos, mandou fazer publicas justiças, de que contra sua real pessoa se alevantavam oniões tão irosas, que houve por bem cessar de fazer mais cruas execuções; porque prendiam e puniam principalmente as pessoas, em cujas mãos as cousas do roubo por qualquer maneira se achavam; porque muitos que as não roubaram innocentemente padeciam.

CAPITULO CXXXI

De como foi o casamento da Inperatriz D. Lianor irmã d'El-Rei com o Imperador Frederico, e festas que por elle se fizeram

Tornou-se El-Rei a Evora, e na entrada do anno de mil e quatrocentos e cincoenta, houve cartas do Imperador d'Allemanha Frederico, que então se chamava Rei dos romãos, porque lhe prazia casar com a Infante D. Lianor sua irmã, segundo que fôra já apontado e requerido por El-Rei D. Affonso Rei de Napoles e d'Aragão seu tio d'ella, sobre a qual cousa El-Rei veiu ter côrtes geraes em Santarem, em que foi acordado que o dito casamento se fizesse, para cujo dote o reino com pedidos satisfaria o que fosse razão e se concordassem.

Foi logo para isso ordenado por embaixador o doutor João Fernandez da Silveira, homem fidalgo prudente e grão letrado, que depois foi o primeiro barão d'Alvito. O qual no mez de Junho do dito anno se partiu e foi á côrte do dito Rei de Napoles, onde com os embaixadores e procuradores do Imperador, que para o caso eram hi vindos, o dito doutor por meio do dito Rei a que tudo ia cometido, concertaram o dito casamento, de que fizeram autenticos contratos, e assinaram tempo certo a que o dito Imperador enviaria sua embaixada com seu suficiente procurador, para em seu nome receber por mulher a dita Infante, que havia de ser na entrada do anno que vinha de mil quatrocentos e cincoenta e nove, e logo levada a Allemanha. Da qual cousa sendo El-Rei logo avisado, se foi com sua côrte a Lisboa, onde entrou a uma quarta feira XXIII de Junho, que por acertamento foi bespora do Corpo de Deos e de S. João juntamente, onde quiz que o dito recebimento e entrega se fizesse com grandes e reaes festas, para que fez grandes provimentos e deu muita pressa.

E os embaixadores do Imperador que eram dois, tardavam já mais tempo do que fôra concordado, e a causa d'isso foi, porque em Castella no caminho de Santiago, a que vieram em romaria, foram roubados e deteudos, os quaes topou em seu destroço em Portugal, na Arrifana de Santa Maria, Afonso Nogueira, Bispo de Coimbra, que d'hi a pouco tempo logo foi Arcebispo de Lisboa, os quaes ambos eram homens de ordens sacras e letrados, um se dizia confessor do Imperador e outro seu capellão, e vendo Affonso Nogueira sua necessidade, e que não vinham em auto e habitos como cumpria a embaixadores de tamanho Senhor e que tão alto casamento haviam de fazer, determinou indo á mesma romaria de Santiago se volver com elles, a que com suas despezas, prata e cama e servidores, mandou servir e prover com muita nobreza e em grande cumprimento, e em Coimbra fez comprar muitos pannos finos, de que a elles e aos seus mandou fazer de vestir, segundo ás pessoas de cada um pertencia. E com elles leixou hi todo provimento com que de seu vagar se fossem a Lisboa, para onde elle se adiantou; porque avizasse El-Rei do que lhe cumpria, e logo ao caminho se tornou aos ditos embaixadores, com que foi por Villa Franca, onde o Infante D. Anrique os recebeu com festas e mui manificamente, e foram dormir ao Lumiar quinta feira trinta dias do mez de Julho do dito anno de mil e quatrocentos cincoenta e um, e ao outro dia foram recebidos de toda a côrte e cidade com muita e mui nobre gente, e de caminho foram decer aos paços d'Alcaçova. Em que El-Rei na sala grande, que para isso estava em grande perfeição aparelhada, os recebeu assentado em sua cadeira triunfante, posta em seu estrado real, acompanhado de muitos senhores e fidalgos como o auto requeria, e aquella hora não foi mais que d'encomendas e visitações, com as quaes feitas se despediram e foram aposentados nos estaos do Rocio onde lhe foram aparelhadas as casas necessarias como a taes pessoas cumpria. E assi lhe foram ordenados mantimentos e provisões, e outras cousas de graça em muita abastança.

E os ditos embaixadores repousaram alguns dias, dentro dos quaes depois de vistos e examinados os contratos do dito casamento, e assi os poderes que traziam para o fazer, o recebimento entre a Imperatriz e o procurador do Imperador se ordenou de fazer, e fez solemnemente por palavras de presenente nos paços do duque, que são junto com S. Cristovão, a um domingo IX dias de Agosto de mil e quatrocentos cincoenta e um, ao qual foram El-Rei, e o Infante D. Fernando seu irmão, e o Infante D. Anrique seu tio, e condes e perlados e muitos nobres senhores, e assi foi a Rainha com a Infante D. Joana, e com muitas outras donas e donzellas de grande condição.

E por honra e memoria d'aquelle dia depois do casamento acabado, a requerimento da Imperatriz e dos embaixadores, outorgou El-Rei dificeis perdões de mui rigorosos casos, e fez quita de grandes dividas, que para outras pessoas particulares lhe foram requeridas. E houve aquelle dia convite real de vinhos e fruitas em uma notavel perfeição, e assi muitas danças e festas em toda a noite. E depois em todolos dias que a Imperatriz esteve na cidade ante de sua partida houve sempre mui suntuosos banquetes, em que d'El-Rei e da Rainha foi muitas vezes convidada, e assi os embaixadores e Infantes, como em ricos momos que o Infante D. Fernando por si fez, e outros de muito mór riqueza e singular invenção, que o Infante D. Anrique mandou fazer, com outros de muitos senhores e fidalgos, e sobre todos o d'El-Rei, em que desafiou os cavalleiros para as justas reaes, que manteve na rua Nova, com condições mui excellentes e de grande gentilleza, e assi propostos grados e empresas mui ricas para quem mais galante viesse á tea e assim melhor justasse. A que o Infante D. Fernando veiu com seus ventureiros vestidos de guedelhas de seda fina como selvagens, em cima de bons cavallos envestidos e cubertos de figuras e côres d'alimarias conhecidas, e outras diformes, e todas mui naturaes, e o Infante D. Fernando por melhor justador venceu então o grado, que foi uma rica copa de que fez logo mercê a Diogo de Mello. E assi vieram outros seis ventureiros do Infante D. Anrique ricos e em bôa ordenança, e após elles outros muitos, que no primeiro dia e em outros quatro que El-Rei manteve justaram, em que se fizeram notaveis e maravilhosos encontros. E depois das justas houve touros, e canas e mais momos e banquetes e muitos entremezes de grandes invensões, e com muita custa.

CAPITULO CXXXII

Da partida da Imperatriz d'estes reinos, e das pessoas que com ella foram