E finalmente sendo já todalas pessoas ordenadas, e navios e cousas prestes para a partida da Imperatriz, uma segunda feira XXV dias d'outubro ante de embarcar e se meter no mar, ordenou El-Rei que fossem todos ouvir missa á Sé, para onde El-Rei foi diante com a Imperatriz, e após elles a Rainha, e com ella o Infante D. Fernando, e logo a Infante D. Caterina que levava o Infante D. Anrique, e após ella a Infante D. Joanna com que ia o marquez d'Ourem, e estas pessoas reaes foram todas a cavallo, e a outra gente que era muita e mui nobre, assi homens como mulheres foram todos a pé.
E como entraram na Sé a Imperatriz se foi á cortina d'El-Rei, e com ella as Infantes suas irmãs, El-Rei se foi para a da Rainha, que por ser prenhe e ter na emprenhidão fortes accidentes se retraiu a uma capella da charolla em que ouviu missa.
Foi a principal missa dita em Pontifical e mui solemne, e com pregação á partida e auto consoante, acabada a qual, e dada a benção pelo Bispo de Ceuta com muita solemnidade e devoção á Imperatriz, abalaram todos até á porta da Sé, d'onde a Imperatriz com muitas lagrimas se despedio da Rainha que não pôde mais ir, e de hi El-Rei com todolos outros senhores e senhoras se foi com a Imperatriz a pé, até o cais da Ribeira, em que era feita uma ponte de toneis, porque entraram em uma carraca que para ella se armou e concertou em grande perfeição.
E á primeira era ordenado que com ella fosse o Infante D. Fernando, e elle o desejou e procurou assi pela acompanhar mui honradamente, segundo a pessoa que era, como por ir vêr El-Rei D. Affonso de Napoles seu tio que muito desejava. E em fim El-Rei o não houve por bem, e foram com ella o conde de Ourem, que então fôra feito novamente marquez de Valença de Minho, e a condessa de Villa Real a Velha com muitas donas e donzellas, e o Bispo de Coimbra D. Luiz Coutinho, e Lopo d'Almeida, e Pero Vaz de Mello, regedor da casa do civel de Lisboa, e Alvaro de Sousa, mordomo mór, e Affonso de Miranda, e Gomez de Miranda, e Gomez Freire, e João Freire, e D. Diogo de Castello o Velho, e Fernão da Silveira, e Martim Mendez de Berredo, e outros muitos cavalleiros a que então foram ordenadas quinhentas e oitenta emcavalgaduras, e para sua embarcação levaram duas carracas e seis náos, e duas caravellas; e porque depois da Imperatriz ser embarcada sobrevieram ventos contrairos, ella sem sair da carraca esteve no porto sobre ancora muitos dias; e porém como Deos deu vento de viagem, partiram de Lisboa e foram a Ceuta a cinco dias de Dezembro.
E a Imperatriz com todos sahiu em terra, e foi de pé em romaria a Santa Maria d'Africa. Era então capitão de Ceuta o conde D. Sancho, que com as festas que pôde lhe fez muito honrado recebimento, e deu banquetes na terra, e assi muito refresco para o mar. E d'hi fizeram vella, e passaram ao mar grandes e perigosas tromentas, e em fim aportaram a salvamento em porto Liorne, junto com Pisa, bespora de Santa Maria Candelaram, primeiro dia de Fevereiro.
CAPITULO CXXXIII
Como a Imperatriz chegou á Italia e foi do Imperador recebida, e assim como ambos foram pelo Papa recebidos e coroados em Roma
E dos moradores da cidade de Pisa em que entrou foi altamente recebida, e foi a tempo que o Imperador esperando já por ella estava em Italia na cidade de Sena; d'onde logo enviou a ella o duque de Saxim e dois condes e quatro barões, e algumas outras senhoras d'Allemanha, e tambem Eneas Silvio, que então era bispo da dita cidade de Sena, e depois foi Cardeal, e tambem Papa chamado Pio segundo, com que de Pisa veiu com grande honra até a dita cidade de Sena, em que entrou a primeira quinta feira da quaresma. D'onde sahiu logo fóra o duque Alberto, irmão do Imperador, e depois El-Rei d'Ungria, moço acompanhado de rica e mui nobre gente, e o Imperador a esperou á porta da cidade da parte de dentro, acompanhado de dois Cardeaes, todos a pé, e a Imperatriz se deceu, e lhe quizera beijar a mão, e elle não quiz.
E depois de suas falas e arengas publicas, que por oradores alli se fizeram, se foram ás pousadas, onde por memoria d'esta primeira vista no proprio logar em que se primeiro viram está uma coluna de marmore mui alta com o escudo Real de Portugal, que o dito doutor João Fernandez da Silveira, embaixador, que era presente, mandou fazer.
E depois de se alli em Sena fazerem muitas festas e prazeres por alguns dias, o Imperador e Imperatriz partiram para Roma, onde tinha o Sumo Pontificado o Papa Nicoláo quinto, que depois de o Imperador fazer certos juramentos e solenidades, a que os Imperadores de Roma são obrigados, os mandou receber com o Collegio dos Cardeaes, e com toda a côrte romana, que é a mór honra que se póde fazer. Entraram a nove dias de Março do anno seguinte de mil e quatrocentos e cincoenta e dois. E da porta da cidade onde os veiu receber uma solemne procissão, foram logo decer á Igreja de S. Pedro, onde o Papa nos degráos da porta principal os veio receber, e depois de lhe beijarem o pé, e fazerem o divido acatamento, o Papa com grande alegria e muita honra os levou dentro ao altar de S. Pedro, onde depois de fazerem oração se tornou com elles ás portas, d'onde por aquelle dia se despediram para as pousadas.