E aos quinze dias houve missa papal em S. Pedro muito solene, a que o Imperador e Imperatriz estiveram, e alli o Papa lhes fez as benções que a Santa Egreja aos novos casamentos ordena; porque sem isso houveram por bem que o matrimonio entre elles se não consumasse nem consumou, salvo em Napoles depois da quaresma toda passada; porque assi o tomaram por devoção.

E aos vintoito dias do dito mez no fim da outra missa do Papa, elle com grandes solemnidades e maravilhosas cerimonias, por suas mãos em S. Pedro os ungio e coroou, e hi com grandes triunfos foram sem o Papa levados a S. João de Latrão, e ao passar da ponte de Santangello, indo de caminho fez o Imperador cavalleiros o duque Alberto seu irmão, e El-Rei d'Ungria seu sobrinho, que vinham com elle. E assi outras muitas pessoas de grande valor. E ao outro dia tornou a fazer outros em S. Pedro ao pé da veronica, em que foi o dito embaixador João Fernandez, que depois foi o primeiro barão d'Alvito como já disse. Acabadas as quaes cousas o Imperador e a Imperatriz ante de se irem para o imperio, a XXVII dias de Março partiram para Napoles vêr El-Rei D. Affonso, que em bespora de Pascoa lhe fez tão ricos e suntuosos recebimentos e festas, que com razão por sua grandeza, nobreza, e manificencia apagaram a memoria de todolos excellentes, que até seu tempo se fizeram, e d'alli tornaram outra vez junto com Roma, e de hi fizeram seu caminho para Allemanha, e d'este Imperador e Imperetriz nasceu Maximiliano, que depois da morte de seu pae foi Rei dos romãos.

CAPITULO CXXXIV

Dos filhos que a Rainha pario, e de como o Infante D. Fernando secretamente se foi d'estes reinos, e logo tornou a elles

A Rainha D. Isabel ao tempo d'estas festas era prenhe da primeira vez, e pario em Cintra um filho, que houve nome o Principe D. João, e em menino logo falleceu, e depois pario logo a Infanta D. Joana, que sempre se chamou Princesa até o anno que vinha de mil e quatrocentos e cincoenta e cinco, em que o Principe D. João nasceo, e depois se chamou Infante, e falleceu honestamente sem casar nem obrigação de religião dentro no mosteiro de Jesu d'Aveiro, em idade de XXXVI annos no anno que vinha de mil e quatrocentos cincoenta e seis, e no anno de mil e quatrocentos cincoenta e sete El-Rei se foi a Evora, onde o Infante D. Fernando seu irmão, segundo alguma opinião, teve com elle alguns requerimentos a que El-Rei, segundo sua vontade não satisfez. Pelo qual o Infante, ou descontente d'isso, ou desejando acrescentar seu nome e honra na guerra d'Africa, como outros disseram, ou com desejo de ir vêr El-Rei D. Affonso de Napoles seu tio, que por não ter filho herdeiro legitimo, tinha esperança que o dotaria por filho para sua sobcessão, determinou ir-se escondidamente d'estes reinos sem licença d'El-Rei, sendo já casado em edade de desoito annos. E para isso mandou a Lopo Fernandez Andorinho, seu estribeiro, que lhe fizesse como fez com grande trigança e dissimulação aparelhar uma caravela na Foz d'Odiana, e como foi avisado que era prestes, partiu-se d'Evora secretamente dia dos Innocentes, que é a terceira Oitava do Natal, e com elle sómente Nuno da Cunha seu camareiro mór, e o doutor Vasco Fernandez, e dois moços da camara, e meteu-se n'ella com fundamento de tocar Ceuta.

Não foi El-Rei de sua partida sabedor salvo no outro dia, com que foi muito anojado, e mandou logo muitos fidalgos por todalas partes, avisados que por qualquer caminho que levasse o seguissem; e porque o Infante ao partir d'Evora por enlear os que o seguissem, pôs o rostro em Moura com mostrança d'entrar em Castella, El-Rei que d'isso foi avisado, partiu logo para Mourão e d'hi porque não achou certo recado, partio pelo rio d'Odiana abaixo sem algum repouso até que chegou a Crasto Marim onde soube que o Infante embarcara, e d'hi apressado se foi a Tavilla.

E ante que da mudança do Infante alguma cousa em Ceuta se conhecesse, chegaram a ella por mandado d'El-Rei, João de Mello alcaide mór de Serpa, e Galleote Pereira, que ao conde D. Sancho capitão de Ceuta notificaram o caso, e da parte d'El-Rei lhe encomendaram, que com gram deligencia e trigança mandasse guardar o estreito, para que se o Infante passasse como se presumia, em toda maneira até o avisar o detivesse.

Deu o conde a isso muita pressa e mandou logo armar fustas e caravellas, e esses navios do reino que tinha. E em se estas cousas aparelhando, estavam sobre o mar para isso postas atalaias, que n'elle descobriram uma gallé e uma caravela ambas juntas, e a galé era de um Peroso, cosairo italiano, que n'aquelle estreito andava d'armada, e na caravella vinha o Infante após quem o cosairo vinha, já avisado de quem era, e para o deter e não o leixar passar, se por ventura desviara a prôa de Ceuta, e o conde como houve conhecimento que alli vinha o Infante o foi em uma galeota logo receber ao mar, e com elle se veio ao porto onde com João de Sousa sómente entrou na caravella e lhe beijou as mãos, e o Infante sahiu, e foi logo a Santa Maria d'Africa, e tornou-se a apousentar, e o conde fez quanto pôde pelo agasalhar e servir em todo cumprimento e perfeição, e lhe entregou a vara da governança e capitania da cidade; mas o Infante havendo-a em sua mão e esforço por bem empregada, não lh'a tomou, e o conde como era de muitos annos e siso, depois de praticarem sobre sua partida, moveu o Infante ao que quiz, que foi conforma-lo com a vontade d'El-rei, para o qual o conde depois de concertar o assessego do Infante na gallé do cosairo, avisado bem de tudo logo partiu e o achou em Tavilla, com que El-Rei e o Infante D. Anrique e toda sua côrte crendo que vinha alli o Infante, foram postos em grande alvoroço, e os vieram receber á ribeira, e depois de o conde lhe dizer o fundamento do Infante, El-Rei com causas e razões evidentes, e que muito faziam ao resguardo de sua honra e estado, houve por escusado satisfazer á tenção do Infante, que era estar como fronteiro em Ceuta, a quem tambem logo mandou o conde d'Arrayollos com quem foram seus filhos, e o conde d'Atouguia, e o marechal, e após elles outros muitos fidalgos e pessoas principaes de todo o reino, para o Infante lhe dar fé, e o moverem logo para sua tornada.

E assi se tornou o conde D. Sancho, que no caminho tomou por força uma caravela com uma rica empresa de mouros e cavallos, e cousas outras muitas com que veiu alegre a Ceuta. E elle e os outros declararam logo ao Infante a vontade e desejo d'El-Rei. E finalmente depois de o Infante ser por cartas d'El-Rei, e por os senhores que com elle eram mui perseguido acerca de sua volta para o reino; com especial porque na cidade morriam muito de pestenença, houve por bem faze-lo, sendo já diante partido o conde d'Arrayolos e D. Fernando, e D. João seus filhos, que o Infante tinha despedidos com fundamento de ficar em Ceuta alguns dias.

E ante de o Infante se meter no mar; por que o conde D. Sancho andava anojado por uma sua filha já mulher, e por o Arcebispo de Lisboa D. Pedro seu irmão, que uma em Ceuta, e o outro no reino ambos então falleceram, e em signal de tristeza trazia por elles grande barba, o Infante lhe rogou que a fizesse e tirasse o dó, e o conde para o fazer lhe metteu por condição que tambem fizesse a sua que ainda nunca fizera, de que ao Infante aprouve e assi o fez, e logo embarcou em navios, e com elle o conde D. Sancho, e o conde d'Atouguia, e outros muitos senhores e fidalgos, e passaram logo á ilha de Tarifa, e d'hi pelos lugares da costa do mar até Callez, recebendo o Infante dos castelhanos muitos e honrados presentes e grandes refrescos, e elle assim fazendo a muitos que lh'o pediam muitas mercês e esmolas.