El-Rei, d'Estremoz se foi a Evora, e hi leixou seus filhos, e com elles D. Briatiz, e Diogo Soarez d'Albergaria seu marido, que por sua fidalguia, bondades, e grande saber foi dado ao Principe por aio, e até sua morte sempre o foi.

Veiu-se El-Rei a Setuvel para logo embarcar, em que sobreveiu alguma torvação pela grande doença de febre em que achou o Infante D. Fernando seu irmão, de que Deus em breve o livrou, tendo elle já mandado que por não ficar o levassem, e assi doente em um leito o metessem no mar.

E um sabado, derradeiro dia de Setembro, do anno do nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil quatrocentos e cincoenta e sete, depois d'El-Rei ouvir sua missa solemne e prégação mui devota, foi em procissão armado, e não de todas armas, até os bateis, acompanhado de sua guarda e de muita e mui luzida gente, e n'elles bem remados e ricamente toldados se foi á sua náo, que se chamava Santo Antonio, e com elle o Infante D. Fernando, e o senhor D. Pedro, que alli veiu com gentes e concertos que muito louvaram, e o marquez de Villa Viçosa com D. Fernando, e D. João, seus filhos, e D. Alvaro de Castro, e Pero Vaz de Mello, e outros muitos senhores e fidalgos, com que El-Rei do dito porto partio com noventa vellas.

E á terça-feira seguinte, tres dias d'Outubro, pela manhã, dobraram o cabo de S. Vicente, e chegaram á villa de Sagres, onde o já esperava o Infante D. Anrique, que a El-Rei e a todos os que sairam em terra fez falla em grande perfeição e abastança; era já hi o conde d'Odemira, que viera de Ceuta com quatro fustas e um barinel, e á quarta-feira foi El-Rei a Lagos, e á quinta-feira sahiu em terra e pousou no castello, onde esteve oito dias esperando as frotas do Porto e do Mondego e d'outros lugares, que alli todos chegaram.

El-Rei á terça-feira, que eram dez dias d'Outubro, se recolheu á sua náo porque todos se recolhessem, e á quarta-feira tornou logo a sair armado, com sua guarda diante, e todo o mais com maravilhoso e rico estado e grande gentileza, foi ouvir missa, e com elle todolos senhores que eram na frota. Acabada a qual El-Rei posto em meio de todos, com graciosa e alegre contenença, e com palavras cheias de devoção e grandeza, esforço e perfeita eloquencia, e com cautelas e fundamentos de bom e prudente guerreiro declarou sua ida sobre a villa d'Alcacere, louvando e agardecendo a todos com muita humanidade a diligencia e amor com que o tão honradamente vinham servir, offerecendo-se a lh'o conhecer com as honras e mercês, e acrescentamento que a cada um coubesse e merecesse. E em fim de sua falla, o Infante D. Fernando como pessoa mais principal lhe respondeu por todos, assaz bem e como cumpria. E em fim de suas palavras, com os giolhos no chão lhe beijou as mãos, e assi todos os principaes que hi eram, e á quinta feira XVII dias d'Outubro El-Rei partiu de Lagos com toda sua frota, em que por todas haveria duzentas e vinte vellas, e ao sabado porque o vento não terçou para tomar o porto d'Alcacere, foi El-Rei surgir pela manhã sobre a barra de Tangere, onde esteve aquelle dia e ao domingo, por recolher a outra frota que não chegava.

E n'estes dias andando El-Rei pelo mar, viu e contemplou bem a cidade, sobre que desejou que sua ida se mudasse, e acerca d'isso teve conselho bem aperfiado; porque a grandeza de seu coração não requeria menos empresa, e em fim se concordaram no primeiro proposito com que logo partiu, e á segunda-feira ao meio dia chegou a Alcacere, e com elle os navios mais pequenos que se podiam ter ás correntes do estreito.

Mandou El-Rei aparelhar e perceber, para logo tomar terra, e porque ambos os navios em que iam os Infantes não poderam ancorar com elle, e com forçadas correntes foram d'elle surgir duas legoas, e assi bem outras quarenta vellas, El-Rei os mandou a grã pressa chamar, e quando vieram já o acharam armado entre muitos bateis armados postos em sua ordenança para tomar terra, esperando pelo Infante D. Anrique que já tardava, e como o viu fez com muita viveza vogar rijamente os bateis á praia, que com muito esforço e acordo a tomaram todos juntamente, em que se não soube bem determinar quaes foram primeiros nem segundos.

Eram na praia até quinhentos mouros de cavallo d'aquella comarca, e muitos mais de pé, de que na resistencia que cometeram para defender a desembarcação morreram logo alguns, e elles tambem dos christãos feriam outros, e mataram ao sair, um Ruy Barreto, comendador da Ordem de Christus. Mas com tal pressa foram os mouros apertados, que uns para a villa, e outros para as serras d'onde vieram, todos se acolheram, e no encalço d'elles seguiu João Fernandez da Arca, fidalgo de bom esforço, e nas cousas do paço de seu tempo gracioso e mui ensinado. E tanto se chegou ao muro por vingar a morte que logo recebeo, que de uma pedra de cima do muro foi logo ao pé d'elle morto, de que por sua bondade e criação em toda a côrte houve grande sentimento.

E sobre a tarde depois de se repartirem os combates, e n'elles se assentarem as bombardas e ordenarem as mantas, e bancos, e escadas, que com muita presteza se tiraram da frota, El-Rei posto em um cavalo sezeliano, armado e acobertado com sua espada nua na mão, mandou cometer a villa com alguma mostrança de combate, para vêr sómente a maneira de fortaleza e defeza em que se os mouros punham, que n'elles foi assaz boa e com grande recado e esforço; porque com tiros de fogo e bestas que tinham, e pedras que não falleciam, faziam muito dano. Mas os christãos emprenderam tão de verdade, e com tanta força o combate, que El-Rei nem os Infantes os poderam recolher nem afastar d'elle, em que logo derribaram um grande lanço da barreira, e os cavalleiros e gente do Infante D. Anrique, com muito esforço e ardideza romperam e entraram por as portas da mesma barreira, e foram com muita ousadia cometer com engenhos as portas da villa, que por sua grande fortaleza não poderam quebrar; porque eram mui fortes, e forradas de mui grossas pastas de ferro. E sendo já de noite vendo o Infante D. Anrique o desejo e a determinação dos seus, socorreo alli com sua bandeira despregada, e com palavras de Principe tão prudente e ardido como elle era, os avivou muito mais para o combate, que á sua vista e com sua ajuda o fizeram sem alguma covardice. E El-Rei e o Infante D. Fernando seu irmão sentindo na gente do arraial o mesmo fervor e orgulho, que de victoria lhes davam mui grande esperança, mandaram ás trombetas fazer sinal de combate, que por todas partes se deu tão rijamente, e com tanta competencia de honra, que o que menos trabalhava, parecia que toda a empresa tomava sobre si, a que ajudava muito e não favorecia pouco a presença d'El-Rei, que a todalas afrontas acudia, e com palavras de tanto acordo e esforço, de que todos eram maravilhados e mui contentes.

O Infante D. Anrique que n'aquelle officio era velho artificial, mandou á meia noite poer fogo a uma bombarda grossa, que no seu combate era assentada, com que aos mouros começou de fazer não menos dano que espanto, pelo qual desesperados já d'achar remedio de salvação em suas armas, nem defesa, a vieram buscar e procurar na piedade do Infante. O qual lhe respondeu que por quanto El-Rei seu Senhor era alli vindo por serviço de Deos sómente, e não por cobiça de seus resgates nem fazendas, que ao dito Senhor aprazia que elles se saissem com suas mulheres e filhos, e cousas, e leixassem a villa com todolos christãos captivos que n'ella estivessem, os quaes vendo tão determinada resposta, vencidos já de condições tão piedosas, lhe pediram que por aquella noite mandasse sobreser no combate, do que ao Infante não prouve, antes o mandou mais avivar, e pediram após isso uma hora de sobresimento para haverem seu acordo, e o Infante muito menos lh'a deu, antes os desenganou que se fossem entrados por força, que todos sem resguardo nem privilegio de idade, com ferro haviam d'acabar suas vidas. Os quaes meios e concertos o Infante mandou logo notificar a El-Rei, e ao Infante D. Fernando, que de todalas partes esforçaram o combate, que era esforçado e não enfraquecia, pelo qual os mouros se remedearam, e deram nas primeiras seguranças e condições do Infante D. Anrique, e para aprovação de seu rendimento enviaram logo suas seguras arrefens, que foram levadas á tenda d'El-Rei com que o combate logo cessou. E ao outro dia quarta-feira pela manhã, os mouros sairam todos com suas mulheres, filhos, e fazendas sem algum receber nojo, dano, nem alguma outra semrazão, de que os mouros vendo tanta e tão segura verdade nos christãos, tomaram em seu mal muito conforto. Porque o Infante D. Fernando teve na saida d'elles cargo de sua segurança, e como acabaram de sair, que foi depois de meio dia, entrou El-Rei na villa a pé em procissão com os Infantes e senhores e outra nobre gente, e se foi á misquita, que foi logo tornada em egreja de Santa Maria da Misericordia, onde já estava posto um altar em que El-Rei fez oração, e elle e todos com muita devoção por tão segura victoria deram graças e louvores a Deos, porque segundo o lugar era de torres e muros mui forte, e tão provido de gente, bem pareceu tomando-se tão levemente como se tomou, que com a mão e graça de Deos se tomara, mais que com força nem poder dos homens.