CAPITULO CXXXIX

Como El-Rei se foi d'Alcacere a Ceuta, e como a villa foi por El-Rei de Fez cercada, e El-Rei a não pôde socorrer, e desafiou El-Rei de Fez

Esteve El-Rei em Alcacere até o domingo, em que de muitos e mui principaes homens foi requerido sobre a capitania da villa, mas El-Rei a deu e empregou bem em D. Duarte de Menezes, com que ainda não satisfez ás grandes promessas que em cousas d'aquella calidade lhe tinha por seus assinados prometidas, e El-Rei quando lhe deu a dita capitania e governança, publicamente assi lh'o disse com palavras de muita sua honra e louvor.

E depois d'El-Rei prover a villa dos mantimentos, armas, e gente que pareceu necessaria, e armar muitos cavalleiros que o bem mereceram, á segunda feira por mar se foi a Ceuta, onde ainda não fôra. Ao qual senhorio acrescentou d'hi em diante em seu titulo, o d'Alcacere em Africa, dizendo, D. Affonso por graça de Deus Rei de Portugal e do Algarve, Senhor de Ceuta e d'Alcacere em Africa.

E certamente quando El-Rei viu e contemplou na realeza de Ceuta, e em sua grandeza, maravilhoso e forte assento, que seu avô com outra semelhante passagem ganhara, e se lembrou d'Alcacere, e de seu sobrenome Ceguer, ficou triste e pensoso; porque a parecer dos que as viram, tão pequena cousa não encheu a grandeza e bondade de seu coração, e suspirava por outra maior.

El-Rei de Fez como soube que a villa era cercada, partiu com muita pressa e grande poder pela socorrer, e quando soube que já era tomada, com muita ira e tristeza sua e dos seus se veiu logo á cidade de Tangere, para d'alli ajuntar suas gentes e a vir cercar, e trabalhar pela recobrar, da qual cousa D. Duarte foi logo certificado por um mouro d'autoridade, que na face d'Alcacere em uma escaramuça que houveram fôra com outros tomado e captivo, o qual logo mandou a El-Rei que ainda era em Ceuta, e sobre a certa informação que do mouro houve teve conselho, em que depois de ser acordado sem diferença, que Alcacere sobre o provimento d'armas e mantimentos que tinha lhe devia ser dado outro maior, quanto ao mais, que tocava á ida d'El-Rei para o reino, ou esperar alli o fim do cerco ou lhe socorrer houve votos diferentes. Porque uns diziam que dado o dito provimento se devia vir a seus reinos e não esperar lá mais, outros tiveram que em tal tempo estando El-Rei de Fez tão acerca, e partindo-se pareceria fraqueza, e que com seu medo o fazia, e que para isso por tirar suspeitas e fazer um grande cometimento, que á sua honra e estado cumpria, que o devia mandar desafiar em campo, e que se acceitasse o desafio, que ainda estava poderoso para lhe dar batalha e esperar victoria, e quando de tal reto se escusasse, que então sem pejo poderia para seus reinos partir sem algum prasmo nem reprensão dos seus nem estranhos, que o já remocavam.

E a este parecer se inclinou mais El-Rei, que com as palavras e razões que bem cabiam, formou para o dito Rei de Fez um desafio, que lhe enviou por Martim de Tavora, e Lopo d'Almeida, que embarcados em um navio aparelhado d'armas, e Reis d'armas e trombetas, e de suas pessoas em grã cumprimento foram sobre Tangere. Mas El-Rei de Fez avisado do recado com que iam, mandou que lhe tirassem ás bombardas, e não os quiz ouvir, e tornaram-se Lopo de Almeida a Ceuta, e Martim de Tavora a Alcacere, onde tambem com desejo de honra se lançaram muitos fidalgos, que sem duvida no cerco que defenderam a mereceram e ganharam, tão bem e melhor que na tomada da villa.

E aos XIII dias de Novembro El-Rei de Fez com trinta mil de cavallo, e gente de pé sem conto veiu sobre a dita villa, que já d'antes com oito Alcaides seus era cercada, e logo com bombardas grossas e muitos tiros outros de fogo, e com muitos besteiros de Grada que trazia, combateu a villa muitas vezes e com muita força, mas nas infindas mortes e feridas, e outros danos que sempre dos christãos receberam, bem conheceram logo que não tinham d'elles a victoria tão leve e tão certa como esperavam.

E sendo El-Rei certificado do cerco da villa e da estreiteza em que os mouros a punham, logo aos sete dias do cerco veiu d'avante d'ella, com vontade de a socorrer, ou ao menos de a bastecer. Porque quando a tomou, sómente lhe ficou mantimento para a gente ordenada para tres mezes, o que houvera de ser causa de a villa e gente ao diante de necessidade se perder, se Deus por sua piedade o não remedeara.

E porém, El-Rei pela muita gente contraira dos mouros que achou, que por mar e por terra impedio sem remedio seu socorro e bastecimento, depois de enviar a D. Duarte e aos cercados muitos confortos e dar grande esperança da sua breve tornada, se partiu para Farão no Algarve, onde desembarcou, e d'hi se foi a Evora para dar ordem a tornar a socorrer a dita villa, para que depois de tudo bem consirado e provido, achou que para isso todalas cousas falleciam.